
A tristeza matou os peixes que nadavam nos teus olhos
Publicado em 16/07/2007 19:20:00 | Editora: Corpos Editora
| Livro de Contos & Poemas, lançamento: 29-06-2007 Os contos são histórias povoadas de gente possível ou nem por isso, num espaço que tanto é cibernético, como real. Os poemas, têm raizes em cenários de vida que resgatei ao passado, nunca editados, mas a maior parte pertence a uma escrita muito recente, que tem um pé na net e outro no papel e na edição de livros. O meu obrigado a quem já sentiu a minha escrita, verdadeira quanto baste para ter vontade hoje, de escrever um livro todos os dias. Um abraço do José Torres Quando, pela primeira vez li um texto do José Torres, fiquei com a certeza de que tinha lido algo de um dos escritores mais expressivos e fortes no universo da escrita portuguesa. Exagero? Não, de forma nenhuma. Apenas a constatação de que, entre os desconhecidos, quem escreve pode ser tão bom ou melhor que muitos dos que são propagandeados. “A criação” é o título daquela que foi a minha primeira leitura do autor. Um texto curto (com o tamanho exacto para não cair na asneira vulgar), de traços “bocageanos” e cheio de conteúdo:
“O poeta nu sentou sobre uma cadeira o pesado cu e masturbou um poema Nasceu o Tu e tinha acne Era grande e pesado cheirava a peixe e partiu O poeta que o pariu fui.”
Li-o como uma forma muito própria (brilhante, até!) do autor se apresentar, usando o texto como um óptimo cartão de visita. Nele tudo é torneado e polido pelo contexto, denunciando a habilidade e a arte do poeta no manuseamento das palavras tornando-as (todas) poesia. O José Ilídio Torres é, podemos dizer, um realizador ímpar de obras escritas. Quem o lê, inevitavelmente, fica a olhar para a sua obra com olhos de ver, ler, sentir, cheirar e saborear. A maestria com que rege a sua orquestra de palavras tem o dom de cativar a leitura pela criatividade, vivacidade e dinâmica da escrita. Diz, em certo ponto que nasceu poeta:
“Nasci poeta metade profeta metade pateta e não fui o primeiro”
noutro, que amarrotou e chutou a má poesia para longe,
“amarrotei a má poesia esmaguei-a e chutei-a para longe para o mar que a enrolou de onda em onda de vento em vento de pôpa em pôpa até cair na areia moribunda e reles...”
ou que se deita nas palavras,
“...nas palavras me deito com elas escrevo as noites verso após verso contando as horas que as noites demoram a se deitar
nas palavras me deito com elas me cinjo”
de facto, o poeta é e faz tudo isso e mais... conta histórias. E fá-lo com a mesma medida e arte que usa na poesia. A sua versatilidade em termos de estilo e forma de texto e temática, faz dele uma espécie de homem-palavra multifacetado, com uma enorme sensibilidade e capacidade para a produção literária, não se amedrontando com temas perigosos ou de difícil equilíbrio numa linha de bom gosto e educação. Leiam-se os seus temas eróticos ou os de crítica mais cáustica e entender-se-á o sentido deste comentário. O homem destila as palavras, filtra-as e reconstrói-lhes os sentidos. Não há muitos que o consigam fazer com uma amplitude tão grande como o José. Em jeito de conclusão direi que, quando, por obra do acaso, nos deparamos com um escritor da estirpe do José Torres, que consegue navegar na escrita sem pedir meças a nenhum ilustre, que consegue ser poeta, prosista, intervencionista e amigo que imortaliza os seus amigos com alma e mão de grande escritor... devemos seriamente questionar: Mas o que é que andamos por aí a ler quando só por acaso se conhecem os nossos grandes escritores?
Manuel Joaquim Matias Saiote (Comunicador)
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