
A poesia
Publicado em 20/11/2008 18:30:00 | Tópico: Pablo Neruda
| E foi nessa idade... Chegou a poesia para buscar-me. Não sei de onde saiu, do inverno ou do rio. Não sei como nem quando, não, não eram vozes, não palavras, nem silêncio, mas desde uma rua que me chamava, desde os ramos da note, de súbito enre os outros, entre fogos violentos ou regressando só, ali estava sem rosto e me tocava.
Não sabia o que dizer, a minha boca não sabia, nomear, meus olhos eram cegos, algo me golpeava a alma, febre ou asas perdidas, fui me fazendo só, decifrando aquela queimadura, e escrevi a primeira linha vaga, vaga, sem corpo, pura brincadeira, pura sabedoria de quem não sabe nada, e vi de súbito o céu debulhado e aberto, planetas, plantações palpitantes, a sombra perfurada, atravessada por flechas, fogo e flores a noite agasalhadora, o universo.
E eu, um mínimo ser, ébrio do vazio enorme constelado, à semelhança, à imagem do mistério, senti-me parte pura desse abismo, girei as estrelas, meu coração se desatou no vento.
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