
Sem rosto...
Data 19/09/2009 21:45:06 | Tópico: Textos
| Que importância tem o rosto de quem nos fala directamente aos ouvidos da alma? Se é novo ou velho, se é bonito ou feio? Se já viveu muito ou pouco? Se com um simples gesto, nos chega e nos acende a faúlha da felicidade, irradiando-nos o rosto com a chama de um sorriso que começa na barriga e nos sobe até cá acima. Ainda que seja efémera, momentânea... Não é preciso olhar nos olhos de quem nos diz um simples mas verdadeiro "gosto de si, mesmo sem a conhecer". E que logo a seguir nos agradece com um sentido "obrigado!".
Ontem aconteceu-me o inesperado. Alguém que nunca vi, alguém com quem nunca tinha falado antes, alguém que simplesmente me quis dizer o quanto lhe tinha feito bem ler algo que eu escrevi e que um outro alguém lhe tinha oferecido de presente - o meu livro. Fiquei sem palavras... E falou da importância de escrever, de desabafar no papel aquilo que não pode morrer cá dentro. Disse-me que também o fazia, só que o guardava muito bem guardado no fundo de uma gaveta. Que não gostava das novas tecnologias e que preferia fazê-lo à moda antiga, escrevendo-o numa folha de carta e enviando-o pelo correio num envelope selado com a sua própria saliva...
Esta é a recompensa mais reconfortante que algum dia poderia vir a ter. Nem sequer imaginava que chegaria pela noitinha, de uma Sexta Feira de Setembro. Num simples telefonema de alguém que sei, nunca mais me voltar a cruzar, nem sequer em palavras. Senti-o na última frase, a mesma da despedida...
Hoje, em conversa com a nossa amiga comum, fiquei a saber que a tal senhora sem rosto que me tinha surpreendido ontem daquela maneira, era uma senhora de oitenta anos. Mais uma vez fiquei sem palavras, pela lucidez e pela iniciativa louvável de um gesto que jamais esquecerei!
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