
A POESIA NO DIVÃ
Data 05/09/2009 14:36:49 | Tópico: Crónicas
| - Senhora Poesia! - Sou eu. - Sente-se no divã. - (...) - Conte-me sobre você. - Eu estou com crise de identidade. Não sei mais quem sou. Não acredito no que eu mesma versejo. - Há quanto tempo se sente assim? - Nem faço idéia. Acho que faz muito tempo. - Fale mais. - Eu não consigo mais saber o que sinto. Às vezes estou triste; outras vezes, alegre. Numa hora quero viver eternamente; na outra, quero morrer. Eu ando ouvindo o canto das estrelas. Estou ficando louca. Por algum momento, me organizo metrificamente; em outro momento, meu “versamento” se perde em versos brancos. - Algum problema na vida amorosa? - Todos. Eu amo demais e, no mesmo instante, odeio infinitamente ou um segundo sem fim. Então, torno a amar além da primavera. - Que lembranças lhe trazem a sua infância? - Já não sei mais a minha idade. Pareço ter todas as idades. Na infância, eu gosto de brincar de rima fácil, de rodopiar etc. Na adolescência discordo de tudo, apaixono-me... Já não sei mais. Na idade adulta, reflito sobre tudo, creio em tudo e não creio em nada. Fico querendo me matar ou viver e transmitir minha vida pra quem eu encontrar. Na velhice, tudo recomeça e tudo acaba e tudo vira do avesso. Nem faço idéia se o que eu disse agora é mentira ou verdade. - Seu problema é poeticidade múltipla associada a uma confusão conotativa com resquícios de denotação, cujo tratamento se baseia em deixar as folhas em branco por várias horas o máximo de tempo que puder. - Assim poderei ficar curada, doutor? - Talvez. Com muita disciplina e pouca imaginação, certamente! - Eu certamente já estarei extinta. (A poesia, em voz baixa.) - O que disse, dona Poesia? - Divagações, divagações... - E o tratamento prescrito? - Eu o cumprirei até o nascimento de um novo poeta.
(Luciene Lima Prado)
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