
CANTO PARA MIGUEL TORGA, O POETA DA LIBERDADE (republicação)
Data 31/08/2009 17:20:23 | Tópico: Poemas
| "Universal é o local sem paredes." - Miguel Torga -
um metro e setenta e sete tinha o poeta de altura o corpo todo magreza no olhar tamanha amargura punha oculta a beleza não exibia candura era assim o doutor adolfo que viu desde muito cedo desenhar-se a vida dura pro mundo foi miguel torga gênio da literatura
seus hábitos transmontanos ele trouxe para o brasil onde viveu alguns anos sob os cuidados de um tio mas atendendo à saudade da sua aldeia natal tratou de juntar-se ao povo sofrido do seu portugal adotou torga por nome que é planta do chão agreste e com a voz inconteste gritou alto contra a fome e disse não à censura gritou contra a ditadura desafiou o general
no entanto quem o bem canta não demora perde a razão o ditador se levanta dá-lhe o troco com a prisão aljube tem por destino e por alimento água e pão então riu-se todo o burguês engordou de satisfação por uns tempos o camponês ficou longe do seu irmão
mas posto em liberdade mais forte o poeta voltou cantando a sua verdade cantando as águas do douro cantando as mágoas do tejo cantando o correr do mondego seu canto jamais se calou nem quando perdeu a guerra pra morte em câmara lenta passado já dos noventa se a mão da inimiga calou adolfo correia da rocha miguel torga continuou nos olhos de alguma gente onde cresceu a semente dos sonhos que sempre sonhou de um mundo só sem paredes livre das fomes das sedes não preso só aos limites do mapa do seu portugal um mundo de uma só língua todos num único barco sem comandante na proa quer no brasil quer em goa o mesmo sol o mesmo sal em angola em moçambique em são tomé guiné-bissau no timor em cabo-verde também nos confins de macau quem sonha não vê distância tira a capa da arrogância sonha um sonho universal
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júlio
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