
3° ATO
Data 17/08/2009 03:22:54 | Tópico: Poemas
| no teatro em ruínas a atriz morta por estrangulamento há cinquenta anos no camarim meia hora depois do espetáculo reaparece nua no palco às escuras
há uma plateia de cera derretendo aplausos mas a atriz com o olhar apavorado não consegue curvar o corpo para agradecer e tenta num gesto inútil livrar-se das mãos que lhe apertam o pescoço de porcelana do seu rosto transparente cai um suor gelado
as tábuas podres do palco começam a ceder as cortinas também estragadas despencam a plateia de cera sumiu junto com a atriz morta por estrangulamento na memória da tragédia porém o pavor estampado em seus olhos ainda vive
o amante chinês suicidou-se na mesma noite com um tiro no ouvido esquerdo num quarto de hotel a duzentos metros do teatro meio século se passou... meio século...
agora sim as tábuas do palco desabam de vez guinchos quebram o silêncio do meio dos escombros saem dois ratos pardos que se entreolham e avançam na escuridão e na escuridão disputam com fúria assassina a última pérola falsa que sobrou do colar da atriz
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júlio
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