
Carta de Despedida
Data 02/08/2009 18:11:20 | Tópico: Mensagens -> Amor
| O tempo é de balanço. Não de recriminações, nem tão pouco de assimilar culpas ou desaires. O tempo é unicamente de reflexão. Há quanto tempo o não fazíamos? Neste dia ensolarado onde as sombras se infiltram pelas brechas da nossa alma, o melhor caminho é sentarmo-nos no chão, absorver o ar envolvente como se estivéssemos com falta de ar. Ouvir de seguida os pássaros que se desinteressaram dos horrores quotidianos, porque o destino deles se cumpre no preciso momento em que chilreiam para nos encantar. Experimenta essa paz aqui ao meu lado. Sentes? Respiras esta fantástica sensação de liberdade? Descomprimamos as palavras e codifiquemos a naturalidade abstracta com que tudo acontece nas nossas vidas. Nada é por acaso… dizem. E não é, de facto! Talvez por isso, neste momento… o coração se adense neste remanso agitado, de peregrino sem fé. Mas não desiste. Teimosamente segue ainda o compasso das suas batidas, como uma andorinha perdida que não desiste de procurar o seu ninho. Repara, ouves?… Apercebes-te como ainda bate? Como se emociona quando nos atrevemos a olhar nos olhos? O amor lá está, debruçado entre os próprios joelhos em sinal de abandono e lamento, mas espera-nos! É perceptível ainda os gritos que nos lança em silêncios de vidro, nos gestos. Sente-se as angústias que se filtram com as lágrimas derramadas, mas o amor lá está… à nossa espera, sim! É uma questão de sabermos ouvir… A jangada de paus, onde tu eu temos andado numa aventura de prisioneiros do sonho, acaba de sofrer um rombo colossal. Abanou mas não afundou. Cabe-nos então a tarefa de recomeçar a reconstruir o que ficou danificado. Os ramos de alecrim que pusemos juntos aos lirios no topo da jangada, ainda irradiam o seu perfume suave e embandeiram os nossos mais belos ideais. O amor verdadeiro é isso… sabias? As tempestades varrem muitas vezes as praias, como se um maremoto se agigantasse à nossa frente para nos mostrar a pequenez do que somos, mas logo depois vem a luz da aurora devolver-nos a esperança, como se nos atravessasse o coração através dos olhos do anjo que nos guarda. Por mais que alguns tubarões esfaimados tentem beliscar as algas que nos servem de manto verde onde repousamos as esperanças e os velhos sonhos, cabe-nos a nós remar com as próprias mãos no mar infinito dos nossos ideais cujo pôr-do-sol nos indica o infinito…!
(VÓNY FERREIRA)
texto incluído no meu romance O DESPERTAR DA MARIPOSA/editora: Temas Originais
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