
AO ENGANO DA MEMÓRIA
Data 20/07/2009 17:25:24 | Tópico: Poemas -> Surrealistas
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Descendo extensa escada, perfeitamente simétrica, em seus ângulos, que, se repetem, na pedra embutida, enriquecida, de mármore e madrepérola, sem que me dê conta, como que, entorpecido, os sentidos, ou qualquer realidade, recuo no tempo, ao encontro da sujidade, dos becos e das pedras, que sobre pedras, se vão amontoando, no chão, a cada nova derrocada, de mais uma casa antiga.
Reconheço o sítio e os cheiros, nauseabundos, por onde entrava, para passar a noite, e meus braços, deixaram de reagir, adormecidos, pela injecção da manhã. Aterrorizado, vejo que, minhas veias, são crostas, que eu posso levantar, com os dedos, e na carne, em sangue, aí, introduzir a agulha, para minha paz e sossego.
Nada tinha mudado; e, entre a confusão, vi-me de novo, rodeado, de amigos mortos, por overdose. Enquanto, sem descanso, subindo e descendo escadas, entre becos imundos, pessoas, entrando, na casa esburacada, freneticamente, pediam, o tão desejado, quanto necessário, pó de anjo.
E, lá estava, o Jorge, ante meus olhos, magro, velho e doente, sentado, junto a um resto, de parede, de roupa completamente suja, com o dinheiro, numa das mãos e na outra, a maldita heroína e cocaína, para poder satisfazer, dia e noite, as centenas, de clientes, sem parar.
Roubando-me, ao pesadelo, alguém, descendo, pela mesma escada simétrica, enriquecida, de mármore e madrepérola, vendo-me, de todo, adormecido, resolveu acordar-me, pois que, lhe pareci, bastante inquieto. Por fim, desperto, agradeci, e, sentado, tentei pôr as ideias, em dia.
Engraçado, as metamorfoses, a que a mente e o corpo, pelo sono, nos sujeitam, indo buscar, o que há muito, morreu, dentro de nós…
Jorge Humberto 19/07/09
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