
O Canto
Data 15/06/2009 21:37:45 | Tópico: Poemas -> Introspecção
| Quando de vosso vôo contente, Admirava do céu a tristeza, vislumbrei um balé de beleza, Onde dançavas solitariamente.
Quietei-me, ausentando-me de mim! Ouvi calado o vosso canto! Cá me perdia em casto pranto, ao ver tão majestoso querubim.
Deixar-me-ia morrer no enxergar, pois de beleza o mundo há suprido, (já que nenhum protesto fora ouvido) só por estar no céu a bailar.
Dançaste por dias, e encantei-me! Bebi das pávidas noites serenas! Comi da terra as luas pequenas; Dormir solitário, e mirrei-me.
Ao bramir do sol, deleitei-me, Com a alvura do céu a brilhar; Do pássaro o canto fiz copiar, e, sem medo ao céu, entreguei-me.
Estando lá o pássaro fiz encontrar; apaixonado por teu canto de prece, raptei-lho para que comigo fizesse da terra o mais sublimável par.
Afastei-lho de seu ninho alado; Aprisionado, já não mais cantava; enquanto minha pobre dor aumentava, Chorava aos cantos desafinado.
Libertar-nos-ia no libertar; Qual canto de glória ao céu, que corre o horizonte infiel, e sente, mas não pode escutar.
Fi-lo da terra o ser mais infeliz; Já que nem de tristeza cantava; não sorria, não comia, não piava! tampouco haveria de ser joliz.
O lindo querubim as asas pendeu, e com elas se foram o doce canto! Das pétalas celestes ficou pranto de uma sina de silêncio sandeu.
Quando o perecimento já abatia, um sopro do céu veio a libertar, e às almas muito enfermas curar, do mal que há muito lhes curtia.
Da prisão o querubim se libertou; Verteu-se no céu e pôs-se a cantar, reanimou-se-lhe e dançou no luar enquanto piava, como jamais piou!
Eu cá em terra pus-me a chorar, duma alegria e tristeza do canto, e calado vislumbrei, com espanto, que só ali ele teria seu lar.
E ele, nas noites frias de solidão, quando colhe o céu a tristeza, canta alegremente à nobre realeza, sua terna e lisonjeira realização.
Enquanto fico eu perdido em terra, ouvindo calado a linda serenata do pássaro à noite ingrata, que solitária e muda se encerra.
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