
Lembras-te?
Data 15/06/2009 16:55:39 | Tópico: Prosas Poéticas
| Ouvi o uivar do vento e saí apressada a procurar-te na noite fria. No escuro, ouvi os teus passos, fizeste rolar uma pedra que estava no meio do caminho. Não te vi e ainda assim pressenti-te, sozinho. Onde estás? Onde estou?
Lembras-te do ribeiro onde pescávamos com canas improvisadas, frágeis que de tão frágeis, se partiam com a força da brisa, como que a recusarem-se a uma chacina? Sem ti, os peixes fugiram, o canavial secou e a brisa, de brisa fresca passou a vendaval. O ribeiro solitário, amedrontado, perdeu a noção do tempo, do espaço, está desorientado. Mudou o sentido da corrente e as suas águas cristalinas correm para a nascente, para aquela pequena fonte junto à aldeia. A fonte transbordou, a aldeia submergiu, o povo fugiu. Moram mais acima, bem no alto da montanha, do lado de lá. Usam barcaças para vir para cá. No campanário, no velho ninho encostado ao granito, teimosamente, ficou a cegonha, por cima daquele lago imenso. O leito está triste, as pedras redondas e brancas perderam o encanto, o lodo toldou a água e, aqueles salgueiros de verde prateado estão secos. Não conseguem perceber a razão do desnorte do ribeiro e deixaram-se morrer aos poucos. Os sinos do campanário deixaram de tocar; talvez a cegonha não aprecia o toque das trindades pela manhã e ao anoitecer. Ou será que não é capaz de puxar a corda do badalo? A cegonha tem todo o ar de gostar de música, mesmo que seja a dos sinos da igreja. E assim, os sinos calaram-se para sempre...depois, depois de ti.
Lembras-te das flores silvestres, dos passarinhos, das borboletas, das rãs dos charcos, dos pirilampos que nos ensinavam o caminho e nos embelezavam as noites escuras? Lembras-te do meu sorriso, do meu cabelo, do meu perfume,dos meus nadas e de todas as pequenas coisas e belas que na alma pintávamos, os dois? Lembras-te?...
|
|