
Há dias assim
Data 14/06/2009 20:37:32 | Tópico: Poemas
| Há dias assim em que me sinto projectado como uma mola para além do infinito mas volto a mim, perscruto no meu interior e reparo que é inútil fugir. Cumpre-se o Destino. Por isso opto por ficar aqui, parado, estático no tempo enquanto a outra parte de mim teima em partir para o incerto, o indefinido, o lugar nenhum. Cumpre-se a sina.
Quando o sol da tarde já morto no seu esplendor tinge de sangue rubro – um misto de amarelo e vermelho – a linha do horizonte para lá das janelas abertas dum mar de sonho distante, medito nos dias em que o céu e o mar se fundem num só. Extravaso-me de dor para dentro de mim e sofro. Sinto as horas correrem nesta imobilidade em que vivo, vazia, sinto-me impotente por não conseguir segurar aqui o tempo e impedi-lo de partir. Queria segurá-lo, algemá-lo comigo e poder-lhe dizer que aprendi com ele mistérios de vida experiências inúteis que servem apenas para meditar. Que não são remédio para coisa nenhuma.
Há dias chuvosos e de sol, dias primaveris e verões dias de todas as estações… Mas os dias piores são aqueles que nascem sem serem de estações de ano nenhum. São dias cinzentos. Dias de treva cinzenta. Mórbidos, mesmo. São dias que não pertencem a qualquer estação do ano. São apenas os dias das estações do calendário da minha vida. E doem! Doem esses dias cinzentos que começaram no tempo longínquo em que ainda pensava que era possível caminhar erecto, de pé, e romper essa espécie de treva cinzenta que me penetra até ao mais longínquo osso deste corpo coalhado em mim.
Há dias assim. Dias cinzentos em que me projecto, em imagem, para dentro das imagens que nascem em mim – imagens que já não são de futuro nem coisa nenhuma que seja luminosa – e me busco em memórias passadas. E envelheço no tempo. Devagar, mas envelheço! Envelheço como o anoitecer de todos os dias de todos os meses e anos que cai devagar no meu cais. E neste meu envelhecer, parte de mim envelhece comigo – é a parte que prefere ficar – e a outra parte do meu ser teima em partir para lugares que nem conhece de lugar nenhum no seu espírito doido de aventura. Estou dividido por dentro.
de "o Livro das Inquietações"
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