
Carta a um destinatário incógnito
Data 13/06/2009 08:32:13 | Tópico: Poemas
| Parede, 08/04/2009
Meu caro F.
Às vezes dou por mim a reflectir sobre os pontos principais em que assenta (ou deve assentar) uma poética do plurívoco. E sinto necessidade de o dizer a alguém que me escute e entenda. Esse alguém só pode ser o meu amigo F. que me sabe entender com a paciência que lhe é própria de bom ouvinte.
Ora bem: Em boa verdade a poesia que até aqui se fazia visava apenas e só o conhecimento do já sabido. Não explorava e pouco interrogava. Em boa verdade quase se limitava aos lamentos. Noto, contudo, nalguns dos seus poemas, cujos originais o meu amigo me deu oportunidade de ler em primeira mão - principalmente no seu "Livro das..." e no "do meu Grito..." - alguma preocupação em interrogar sobre a finitude do homem e a existência de deus - do deus de alguns homens - perante a guerra e o desajuste do mundo.
Daqui V. se distingue da grande maioria dos petas - e dos poetas de hoje, principalmente. Mas falta-lhe algo para que a sua poesia seja a poesia do conhecimento, em meu entender. Falta-lhe a palavra poética capaz de revelar o conhecimento de algo que permanece ainda por desvendar. É importante que a palavra se dê a conhecer com essa finalidade. Porque a palavra é; porque a palavra cria, no interior do poema, a sua própria referência; funda uma nova realidade que cabe a cada um de nós, poetas da palavra nova, descobrir e assimilar.
Ora veja se tenho ou não razão. Atente neste poema que lhe mando. Nele deixo à sua consideração ( e dos demais leitores que um dia o venham a ler) a possibilidade de o interpretar, e descobrir nele o que permanece ainda por desvendar. Deve ser essa a finalidade da palavra.
Creia-me, por quem é, com consideração e estima o seu Alvaro Giesta
"A sombra do corpo repousa no silêncio das bocas por abrir Pedra a pedra em ondas de sal a terra e o mar erguem-se em desafios a cumprir
Do seu espaço interior tudo se inicia Dos eflúvios do parto nasce a luz que alumia
Constrõe-se o corpo O edifício faz-se Pés mãos o cérebro primeiro Tudo é movimento Tudo é a causa dele e o seu fim derradeiro
A espinha dorsal em equilíbrio suporta o peso do edifício todo O cérebro abre-se Um mar de luz invade o corpo Ascende-se ao conhecimento"
para o projecto “o íntimo da palavra”)
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