
Escrevo com febre febril e doentia
Data 09/06/2009 08:17:22 | Tópico: Poemas
| Aqui, na noite, onde me sento e me sinto ausente de mim, mesmo em mim presente, olho o cintilar frio das estrelas trementes lá longe. É à dolorosa luz cintilante das estrelas nesta noite de Deus e do Diabo… que eu me vejo só! Penso estar em sítio nenhum e ao mesmo tempo estar em todo o lado.
E escrevo. Escrevo de cabeça dorida e fervente, em fúria. Como se estivesse possuído por alma penada e ruim. No meio desta beleza calada da noite, oiço ruídos estranhos a dominar as minhas sensações e dores. Longe, mas perto, numa distância tão curta e tão longe que eu não sei definir, um excesso de ruídos toma de assalto a minha cabeça e perturba-me o pensar. Perturba e cansa ao mesmo tempo. Porque o pensar, além de incomodar muita gente, também cansa e faz doer.
Escrevo com febre. Com uma febre febril e doentia, que nem me deixa pensar o que escrevo. Falta-me a melodia. E das palavras a harmonia, também. E a rima. E tudo o que dá beleza ao verso. Mas para quê dar-lhe a melodia e fazer rimar o verso como o verso clássico requer, se essa mesma melodia e essa elaborada rima distrai?! Distrai quem lê e afasta-o da verdadeira essência do que se quer dizer. Do que se diz e do que se quer entender.
Como eu mais gosto de escrever é com o amigo Álvaro de Campos por perto. Ranger os dentes enquanto escrevo à dolorosa luz das lâmpadas eléctricas da rua. Dolorosas e frias. E nuas. De gelo. Ou da sua fábrica. Escrever com fortes espasmos como o ranger das máquinas, da sua fábrica, em fúria.
Escrever de dentro de mim, vindo de fora de mim aquela força hercúlea de escrever. E de dizer, escrevendo. Dissecar os nervos das correias de transmissão, gigantes, que fazem as rodas dentadas girar e engrenar por aí fora, fúrias de vida com ruídos ensurdecedores. Beijar as pedras com a força dessas engrenagens todas, que se beijam e abraçam entre elas para fazer girar e imprimir movimento. Vós oh máquinas em evolução constante no sofrer do meu pensamento, parai. Parai um pouco e deixai arrefecer esta minha cabeça dos vossos ruídos ensurdecedores, tão cansada.
Gostava também de fazer versos estrondosos como o estrondo da guerra que abomino. Versos estrondosos que pudessem despertar consciências tão adormecidas. Versos estrondosos que cantassem o tempo presente e passado e dessem ao futuro um mundo melhor.
Versos rugindo, rangendo, ciciando… como se fossem vestidos de seda fazendo mil carícias e excessos nos mistérios do corpo que envolve a mulher.
À luz das dolorosas estrelas espalhadas no céu continuo a escrever. Quero o meu exprimir entendido, rasgado em epopeias de quase-silêncio comprometedor de um épico-lírico que se perpetue no tempo. Mas o meu exprimir-me em verso, é de uma inutilidade ruidosa, ás vezes, e tem harmonias que nenhum poder literário deseja.
Rasga-me o silêncio, a carne. Nesta noite cristalizaram-se as estrelas no céu. Todos os astros. Estão mudos, calados, e o silêncio cintilante penetra-me ruidosamente nos ossos. E no cérebro também. Rasga-me esse silêncio, a carne, já completamente dilacerada antes de a chegar a rasgar.
Ah… como eu desejava ser a pedra calada do caminho para evitar contratempos! Mas não consigo submeter-me ao silêncio. E ser a montanha esquecida no horizonte iluminada pela prodigiosa giesta de Maio e bafejada pelo inebriante odor do rosmaninho. Mas prefiro ser o tempo agreste que não ilude nem engana e a picada da vespa que desperta mesmo fazendo doer.
Ouvir a flauta do pastor, que encanta a melodia das aves. Ser pedra inanimada mas que sente a Natureza por dentro de si. Antes ser pedra que ser a dolorosa e fria luz dos candeeiros eléctricos da rua. Ou o incomodativo chiar dos eléctricos na calçada. Antes, que ser o ensurdecedor barulho dos motores e correias de transmissão das fábricas mal iluminadas… …antes, que ser isso tudo, ser nada!
Poema publicado no Jornal "Rostos" e no Recanto das Letras em 30/11/2007 Código do texto: T758969 de "O Livro das Inquietações"
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