
Eu, pecador, me confesso
Data 08/06/2009 09:07:44 | Tópico: Poemas
| Já nem sequer sei o que sou. Nem sequer sei se quero ser alguma coisa diferente daquilo que sou. À parte de nem saber sequer se sou talvez nem queira ser absolutamente nada. Prefiro nada ser e ficar preso em mim nos sonhos que sonho e que invento.
Passeio pelas calçadas da vida que espreito sem ver das janelas do meu sonho feito de quimeras. No meu quarto, escuro, a que apaguei a luz que outrora me iluminava traço linhas indefinidas no espaço da noite e procuro unir os seus pontos dispersos unicamente num ponto comum.
Procuro nos mistérios da noite que se cruzam lá fora, silenciosamente se cruzam com o bulício das ruas movimentadas, o real inacessível, eternamente desconhecido. Misturam-se as coisas da vida que gritam, idilicamente gritam, buscando mistérios onde não há mistérios nenhuns. E o Destino corrói estas coisas da vida e de nada e conduz a coisa nenhuma. Fico vencido.
Vencem-me os ruídos mudos neste quarto apagado… e também as linhas imprecisas e indefinidas que imagino e idealizo pelas paredes sombrias deste quarto, onde nem sequer as osgas se aventuram em lúbricas corridas.
Dentro da minha cabeça sacode-se o vácuo e a minha cabeça não pensa senão em nada e os nervos ferventes à flor da pele destroem-me a razão por nada já saber pensar. Esqueço-me. Estou dividido entre o que sou e não sou e os ossos do corpo que estalam e rangem dor, negam-se a ser.
Dentro da minha cabeça que estala de dor instala-se o esquecimento. De tudo me esqueço já! Da sensação que sonho mas não sonho porque estou acordado se bem que sonhar também é estar acordado. Já nem sei se penso alguma coisa que valha a pena pensar.
Estou dividido por fora e por dentro entre o que penso que penso e aquilo que já não sei pensar. Mil sonhos de génios que não fui mas quis ser estalam-me e abrem ao meio mil cérebros que tenho em mim, já podres e inertes de tanto pensar.
"Não sou nada. Nunca fui nada. Jamais serei nada e nada quero ser." Que sei eu de mim? Nada, absolutamente nada. E que sabem os outros? Ainda menos que eu embora muitos pensem que sabem de mim aquilo que nem sequer eu sei.
Sei que nos manicómios da vida há malucos muito menos doidos que eu. Doidos que nunca sonham e são! E eu nada sou e passo a vida a sonhar. Mas eu não sou maluco. Serei lunático, talvez… um lunático sem certezas nem nenhuma certeza da vida, porque sonhar coisas lúcidas não é saudável para um lunático sonhador como eu. É que o mundo não é dos que sonham mas dos que nascem para o conquistar mesmo não sabendo sonhar.
Vou sair pela noite calada depois de acabar este longo poema a que me propus, e sonhar com tudo menos em sonhar com ser alguma coisa diferente daquilo que sou, ou conquistar o mundo e ser. Sonhar mistérios e sonhos irrealizáveis. Sonhar em nada à luz dos fluorescentes néons que incomodam esta minha forma meio louca de sonhar.
Atravesso a luz oblíqua dos faróis acesos que cortam o negrume das ruas sórdidas e escuras, e esventro a podridão da noite e misturo-me com ela. Para pensar, prefiro a luz difusa da noite à luz real e ofuscante do dia e prefiro o ruído surdo dos carros na noite, na cidade atropelada por vultos esguios que dobram as esquinas das ruas que fedem a fezes e urina das prostitutas e chulos.
Há ruas escondidas e sórdidas, aninhadas e estranguladas aos pés de prédios velhos quase despedaçados e feitos em nada. Estas ruas nunca verão a luz do sol nem ouvirão a voz da gente diferente da que usualmente aí passa. Também elas, essas ruas, sonham sonhos diferentes daquilo que são e não querem ser. E há alcovas bafientas e húmidas ao cimo de cada lanço de escadas velhas, podres e esburacadas, que nunca se atreveram a ter sonhos diferentes. Escadas que rangem a cada passada trémula, hesitante, dos noctívagos vadios e putas de rua que as frequentam.
É à noite que o mundo começa a nascer e eu vou por aí! Perdido e só, vou por aí. E sonho tudo e nada ao mesmo tempo. À porta de cada palácio a mil chaves trancado sonho um sonho diferente dos sonhos de quem lá mora. Porque quem lá mora já não precisa sonhar, pois tem tudo na vida. Aspiro a ser o dono de cada um desses palácios onde se sonham sonhos diferentes dos meus. Aspiro a nada. Porque o meu sonho não passa de coisa nenhuma.
Mas encanta-me sonhar assim. Serei sempre o dono de nada, desses palácios faustosos e velhas mansardas em ruínas onde também se escondem os ratos da noite ao romper de cada dia. Nem sequer Deus se atreveu algum dia a passar por aqui, pelos escombros destas ruas desertas!... Deus? Mas eu não creio em Deus! Às vezes penso que até nem creio em mim e nem sequer em coisa nenhuma.
Só creio no sol que me aquece, e me abrasa as ideias, de dia. Porque este vejo-o! E sinto-o! Prefiro também a noite. Que eu sei que existe, porque sei dos seus silêncios e segredos e angústias. A noite com os seus dons de mistérios urdidos sabe-se lá como e por quem, também é o Deus em que eu acredito. E a chuva. Também creio na chuva que me molha e me ensopa a roupa de pobre que trago vestida e que o tal Deus, de quem falam, não consegue mudar. A chuva fria que me penetra até aos ossos e mos faz doer. Creio no vento que sopra e que oiço uivar, de raiva, uivar… e me diz que a noite é gelada sem lume que me possa aquecer. E o tal Deus não se importa em me vir aquecer… Do resto em pouco mais creio, porque todo o resto é nada!
Acordo deste sonho opaco e cinzento e fica a amargura daquilo que nunca serei. Mas que me importa ser outro diferente daquele que sou? Quantas vezes eu me imaginei o mendigo encostado ao bordão implorando uma esmola. Talvez noutra encarnação tivesse sido o tal mendigo que a cada passo se cruza comigo nas encruzilhadas da vida. Talvez eu tenha existido antes de mim e tivesse sido aquilo que sempre quis ser. O tal mendigo.
Nem sei que quis ser. Também não quis ser poeta. Nunca quis ser poeta! Porque ser-se poeta – dizem, é ser-se um desgraçado. Mas ser-se poeta não é desejar-se sê-lo muito menos aprendê-lo nos livros. Ser-se poeta é nascer-se, sendo-o! Não nego que me corre nas veias o sangue da poesia que nunca quis escrever. Porque nunca quis que alguém soubesse que eu tinha escondido em mim em qualquer sítio que nem eu conheço, o dom de escrever.
A quem deixarei eu os meus versos? Ao Mundo! E que o Mundo os leia e leia neles somente aquilo que com as palavras eu quis dizer. Que não procure neles o que neles não há nem neles está dito, mas somente aquilo que neles escrevi. Nada, nos meus versos, se leia o contrário do que neles deixo expresso. Não se inventem nas entrelinhas em branco, que não escrevo, o que não há porque nas entrelinhas eu nunca soube escrever.
_______ Publicado no Recanto das Letras em 22/10/2007 Código do texto: T704743
|
|