
Passa aqui que amanhã é tarde
Data 02/06/2009 01:08:01 | Tópico: Prosas Poéticas
| Não sei por que razão a minha rua me persegue os calcanhares e me faz calos na memória. A pele da consciência já anda meia enrugada e nem de binóculos entendo o silêncio dos girassóis que, nas esquinas, teimam em virar luas. Nunca mais me lembrei de fazer a poda das unhas e de pintar de verniz os arranhões que faço nas tuas árvores. Elas têm suado tanto que bebem o luar para que as folhas se vinguem das sombras rasas das minhas raízes. Tenho o cheiro do vazio no saber, porque escureci nas pedras e não encontro a minha porta, nem os meus ombros. Podia acender um girassol para iluminar os meus sapatos pendurados no quarto minguante, mas não encontro o interruptor nas cortinas do tempo. A monotonia do cinza atrapalha-me o indicador direito que já não remexe os macaquinhos do meu sótão, esse desvão desigual dos passos que não dou, não rodam, nem viram. Andar na minha rua é perder os dias das noites e os meus reencontros são ocasos falhados em contagem crescente. Não caibo mais em mim de esquecimento… Entendes? Passa aqui, que amanhã é tarde…
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