
O auto da Tentação
Data 01/06/2009 00:04:47 | Tópico: Épicos
| I acto
Narrador: Uma bela dama que divagava pela escura madrugada, questionava e indagava que o amor não era nada Vivia sobre tormentos da alma, e lamentos procurava nas emoções as mais puras sensações Casada era, e bem casada funesta enamorada mas o amor do matrimónio é tão só respeito homónimo e vendo-se ferver de amor caminhava com puro alvor mas no entanto desejosa de uma vida primorosa primária e sensorial não de melancolia fatal e caminhava pensativa triste e depressiva quando no horizonte avistou um vulto que se aproximou caminhava como um galante e a dama, que então perante majestoso ser que a olhava naquele luar que os iluminava Observou-a e encurtou a distância que não durou Então os vultos se aproximaram intrigaram e indagaram quem seria o outro ser que naquele luar podiam ver, e então ele disse-lhe que a poesia era o enigma que ela queria.
 Dama: Quem sois vós caro poeta que me atenta a diva meta? Que me seduz, me aponta a seta me trespassa, ferida aberta!
Poeta: Sei que a desejo e a venero Por vós a cada dia espero Incendeio, tal como Nero O grandioso e o austero
Dama: Que me dizeis a meu marido, não considerais tal perigo?
Poeta: Considero apenas o coração ferido e desamores de um amor querido Tal amor, que em tempos ido, me feriu, divinal castigo
Dama: Não me atentes na madrugada Pois padeço desesperada De amor, de ser amada De exaltações pela alvorada E vós sois quem me desvirtua Quem me atenta, me quer ver nua Difamada na atroz rua Julgais que sou assim sua?
Poeta: Sou apenas sangue em carne crua por não vos ter, minha dócil lua sou aquele que a vós murmura que sofre por paixão dura
Dama: Quem julgais que sois caro poeta, que me desvirtua a pueril meta?
Poeta: Sou o poeta das sensações venero outros, como Camões mas a vós, cara Donzela minha amada, cara Mirela desejo-a ardentemente Deus me ouça, pois Nele sou crente Que é puro e salutar o meu amor E que eu o seja, se assim for mentira o que acabei de lhe dizer punido nos infernos que a ferver punem as calúnias dos galantes que apenas mentem e ferem amantes
Dama: Mas atentai a meu marido Não vedes vós o grande perigo? As suas palavras são tentação São a maça, mas vede Adão que expulso foi daquele jardim e percorreu estradas sem fim Pelo além do fim do mundo Prevaricou, castigo profundo
Poeta: Mas se me cabe tal sofrimento só de a ver, contentamento Atravessarei de cruel gosto e verei o sol posto Mas a seu lado, a madrugada o renascer da alvorada neste madrigal que lhe ofereço Pago caro, é alto o preço de um atentado a tal pureza de uma donzela, pura beleza Reafirmo pois, por vós o meu amor É o antídoto de um analgésico indolor
Dama: Mas observai a meu marido Não considerais tal perigo? Temo-o a ele pelas suas palavras É um homem de regras regradas Pune com a morte o adultério O casamento é um divinal mistério Consagrado pelos rituais Por Deus, pelo Papa, entre outros tais Recuso-me a ouvi-lo Senhor Pois adorna-me com amor que temo e devo recusar pois sou fiel a ao amar Um amor de carne, amor ardente Peco e perco o amor crente no divino que outrora aceitei E apenas com o meu Senhor me deitei
Poeta: Pois se ao amá-la, recebo a morte de bom grado, aceito tal sorte Morreria por um beijo seu Uma carícia que se perdeu nos sonhos em que a vi, e a sonhei Sonho acordado e já não sei Se prefiro morrer a sonhar Ao abraçá-la neste luar
Dama: Peço-lhe, não me atenteis Vede, Senhor meu pai Homem valoroso e regrado Probo, recto e honrado Se soubesse da tentação de sua filha, a perdição Lavaria a honra no momento Trespassá-lo-ia sem constrangimento E minha mãe, como a respeito Desvirtuá-la com este feito Seria atroz e vergonhosa Esta sina, e a alma penosa.
Poeta: Atento apenas que a amo Se não sou sagrado, sou profano Se não sou imenso, sou pequeno Se não sou divino, sou terreno Sou sempre aquele que a venera que vê em si a Primavera Que anseia pelo seu toque que dava o mundo pelo seu dote Atento apenas que a desejo E mal o menos, não o prevejo Pois se amá-la, implica a morte Não recuso, tal feliz sorte Pois contemplá-la e assim viver É reviver e resplandecer É assim contemplar Afrodite E peço-lhe que comigo grite Que brade comigo este fervor De sentirmos grandioso amor
Dama: Seus lábios são a tentação O pecado, a perdição Quando fala, sinto o tremor Pelo suor, duro temor Pois considero este Amor Uma ferida aberta, mero tumor Que deve ter uma simples cura A redenção é para quem jura, A fidelidade é o respeito Puro amor, amor perfeito Amo apenas o que me sustém Que me ama, agora e além Que me jurou amar em grande altar Não com um madrigal ao luar Devo pois refutar o seu amor (E que tanto me custa esta atroz dor)
Poeta: Refutai então a felicidade e morrereis com a saudade
Dama: Morrerei apenas com a consciência Com Deus e Sua veemência
Poeta: Então aproveitai este momento Porque parto, chegou meu tempo
Dama: Mas...onde ides caro Poeta? Ides já? Não tenhais pressa!
Poeta: Irei para não mais voltar Para outras paragens, outro lugar
Dama: Tende calma, caro Senhor Acalmai apressado andor.
Poeta: O meu destino não está aqui Muito menos, perto de si
Dama: Não me atenteis. Ao vos ferirdes Os nossos laços são fecundas vides das uvas da tentação de um vinho de perdição Do Amor que quero ter Em quente inferno irei ferver
Poeta: Fervei em mim, cara Donzela, cara dama, cara Mirela Ferveremos os dois de amor Eu a espiga, vós a flor Dois laços que se enrolam Dois corpos que aqui rebolam Do infernal amor-altar Em que a desejo neste luar Pois se a amo, a verdade digo Anseio seu divinal umbigo Do suor que nele percorre E a seiva que dele escorre São o suco de um divinal festim a Vénus: O Ritual.
II acto
Dama: Venerai o meu umbigo e encarai como inimigo Bom Senhor, meu marido que em sua honra ferido encontrá-lo-á por este mundo movido de ódio profundo E matará sem pundonor constrangimento ou mero amor por uma adúltera que aqui peca que se desvirtua com galante poeta Temos ambos o destino traçado
Poeta: Vivei o presente, depois o passado! Porventura podemos fugir P'ro fim do mundo e sorrir Pela ausência de um ditador que vos retém ansioso amor Um déspota que a encara como posse, posse cara Uma posse que a entristece E bem sei que não o merece
Poeta: Quem sois vós caro Poeta, que me atenta a diva meta, para me falardes de tristeza sem referirdes a pureza? Se sou triste, mas sou pura e a alegria não perdura Pois se alegre não sei se sou nem sequer sei se me alegrou o poema, que outrora li e nesse mesmo me perdi de amores e não de alegria de tristeza e melancolia. Pois amar e respeitar Perene amor que em grande altar Foi jurado e engrandecido Para sempre e aqui perdido Numa vulgar noite de luar Com quem me jura para sempr'amar!
Poeta: Se não juro, pois então prometo Que eternamente me comprometo
Dama: Não prometeis o impossível, bem sabeis que não é credível o que dizeis de leve ânimo pois o pretérito e o contemporâneo são ambos um, nesta doutrina e não evoqueis minha crua sina Pois se crua é, eu a mereço pesada cruz, é alto o preço o amor que me ofereceis é a lascívia de ímpios reis que outrora prevaricaram esses déspotas da carne que amaram.
Poeta: Falais de carne e de luxuria Esqueceis vós essa penúria?
Dama: A penúria é o caminho, O sofrimento é o divino O Amor regrado, é salutar E o amor ardente é descurar O amor divino que é grandioso que renega o poeta ocioso que evoca um amor frágil habilidoso e sempre ágil que atenta os corações que evoca as emoções impróprias e funestas em luxuriantes festas onde por pretéritos imperfeitos se escolhem como eleitos Baco, Vénus e Afrodite e esses ímpios da mesma elite
Poeta: Não sei mais que vos dizer Se não, querer é poder! Mas como não quereis a alegria A felicidade e a folia O Amor, terno e intenso Apenas carícias: É o que penso Ao contemplar divinal rosto A vossa ausência, é o sol posto E o Divino não é penúria deixar de amar é sim injúria Um atentado às emoções Pois somos dotados de sensações Será ímpio desfrutá-las? Com Amor e consagrá-las no altar que proclamais Amo-vos e muito mais!
Dama: Não faleis, que vos odeio Sois fraco, rude e feio Não faleis, que sois impróprio Sois a droga, o álcool, o ópio Não faleis, que a vossa voz é o caudal do rio na foz Que me escorre nos sentidos São ardentes estes perigos Não faleis, que vos recuso O meu Amor é tão difuso Pois se Amar a Deus é amar a dois e aos Seus intocáveis mandamentos Amar a três é só tormentos E se o meu marido me jurou amar em austero grandioso altar e se vós jurais perene amor e me afastais esta dor Perco a razão ao que fazer Não me cabe a mim escolher!
Poeta: Caberá então a quem, Ao divino e ao além?
Dama: Ao fado da minha vida, pois se aqui estou perdida, carrego a mágoa do sofrimento desta sina e do lamento Sois vós, a felicidade, e não querendo, morrer com a saudade me entrego, qual freira que se entrega, feita rameira.
Narrador: Amaram-se nesse luar As peles quentes no abraçar irradiaram o universo de carícias e amor perverso Amaram-se, sem cessar Um amor ardente, que naquele luar Foi eterno e para sempre Foi sucumbirem-se numa só mente Foi alcançar o equilíbrio e renegar atroz martírio Foi juntar o sangue, e a paixão Fazer de dois, um só coração Foi o plural, ser singular Uma entidade naquele luar Una em quatro braços que se perderam, em ternos abraços Foram os ventres que se uniram Requerimentos que se pediram Ternuras que se se trocaram São estes dois, que se amaram E louvaram a Deus, pois são dois num só E no fim da vida, são apenas pó Mas um pó uno, da mesma terra É ardente amor que aqui encerra Um pecado de traição Um pecado de perdição Entre uma adúltera e um poeta que lhe atentou a diva meta de um fecundo amor que no fim foi três de um rebento que assim se fez Um homem que é pecador pois provém de ardente amor.
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João Filipe Pimentel
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