
O Medo
Data 17/06/2006 07:20:00 | Tópico: Poemas -> Sombrios
| O Medo
I Naquele tempo eu era menino Mas aquelas coisas não esqueço Elas me dilaceraram e povoam Agora a solidão de meu ser
Eu tinha muitas tarefas Coisas que eu não devia fazer, Mas caí em miseráveis mãos Que levaram a vontade de viver
Mas isso fica pra outra hora Isso não é digno de lembrança Mesmo que nos venha sempre A nos subtrair a confiança
Num de meus muitos afazeres Eu era obrigado a trilhar Por estradas abandonadas Cheias de almas arruinadas
E um dia eu fui apertado Entre tempo e a distância E fui por um caminho que Gerava muita desconfiança
Mas antes hesitando pensei, Não devo ir por ali, não devo... Está ermo, é muito escuro... E segue o muro do cemitério...
Não devo ir por ali, não devo... E eu decidir não ir, não ia... Mas assim ia demorar demais Pra voltar e fazer outra viagem
Porque aquelas pessoas malignas Que disseram outro dia me amar Faziam com que trabalhasse e Como salário vinham me xingar
Mas nessa época não percebia E estava lá ante a árdua decisão, Ir pelo caminho dos mortos Ou ser vítima de uma xingação
Temia os que diziam de mim cuidar E tentava fazer o melhor que podia Temia a carranca de seu Raimundo Via a raiva dele até quando dormia
E a mulher dele, uma fera, Que sumiu da minha mente, Achava-me tantos defeitos que Até hoje meu coração sente
Mas eu não me decidia Estava olhando o caminho Cuja entrada pedregosa Parecia querer me tragar
Eu olhava demorado para ele Olhava também lá para o alto E a escuridão não deixava Se mostrarem os entes que Pareciam querer me encontrar
E eu olhava, mas não via... Certificava-me que nada havia E assim eu me convencia Até que procurei o caminho Naquela miserável madrugada
E pisando muito desconfiado Eu fui seguindo pelo atalho Subindo rente ao longo muro Que guardava os entes funerais
E o caminho era denso e úmido Como uma caverna de morcegos A pregar os olhos no entrante Que desconfiado vem seguindo
E, sugado pela escuridão, Subia aquela montanha Que parecia infinita Ante a minha escassa visão
Já era alta madrugada E lá ia meio perdido Quando sentir passar por trás Um corpo diluído...
E eu neutralizado pensei, Não vou olhar para trás Seu olhar está cravado em mim... Seu olhar está cravado em mim...
O ar ficou mais carregado Senti as trevas mais úmidas E um leve pisar após cada Passo que eu ainda dava...
E foram me roubando o ar E eu já não sabia o que pensar E eu rezava muito baixinho E queria também gritar, Mas aqueles olhos me seguiam Cruelmente a vigiar Dos meus traços o congelar
Eu nem lembrava de mais nada Tinha sumido o resto do mundo E ali naquele longo momento Remoía-me um sofrer profundo
E eu fui seguindo... Olhava às vezes rapidamente Alto, da montanha o final E sentia que ainda ia demorar Minha estadia com aquele Ser de presença infernal
Uma hora eu senti Que ele tocou no meu pescoço E eu me paralisei E senti que já estava morto.
II E então eu pude ver Toda aquela multidão Que me olhava esquisito Imersos na escuridão
Eu fiquei petrificado E meus órgãos se espremiam E retesados não respondiam Ao desespero que eu sentia
E foi nesta hora que pensei, Que desgraça, horror sem fim, Ouço esses vis elementos Que mostram as chagas a mim
E eu continuava sentindo Aquela pesada presença Que as minhas costas estava A se aprazer dos meus chistes No momento em que desesperava
E eu procurei o caminho E minha vista não viu a montanha E eu não estava mais em vida Presenciando aquela visão tamanha
E eu tentei falar, mas Só saíram urros trementes Que iam se perder no vazio Da vastidão de vida ausente
E então ouvir assim dizerem,
Não mecham com ele, Ele não é alma penitente Ainda não está conosco Deve passar livremente
Ele tem poucos anos E vai vir para gente Tenho seguido sua vida, Não é das mais rentes
Vamos apenas avisá-lo Que estamos cuidando De cada passo que ele dar Ao longo dessa se findando
Ele está inerte, não pode andar, Mas ouvir ele pode, E assim ele vai nos cantar Em tempos vindouros, Para outros nos apresentar
III Foi ai que então Aquelas bocas desgraçadas Começaram a gritar Com voz não comparada a nada
E falavam rápidos, raivosos, Com os dentes podres à frente A querer que eu bem entendesse, E com isso carpisse fortemente
E eram como cobras que Enroscavam-se em mim E na altura da cara, chiando, Um a um me dizia assim,
Eu sei o que fez! Eu vou te pegar E estou esperando Esse corpo deixar!
Eu te conheço Sei teu mistério E te espero No cemitério!
Bem feito bem feito Que preguiça essa tua! Agora agüenta E olha à visão nua!
Tu vai cantar! Vai ter que cantar Pra outros de lá Os astutos pegar!
Eu vi teu fazer E me regozijei Quando te vi lento Por ali entrar...
E um como a morder Assim me falou,
Eu já tive carne E fui teu parente E hoje de odeio Mais que antigamente
E foram falando E eu os ouvia Suando, tremendo, Em total agonia
IV Outra coisa me chamou A atenção, me virei E vi lá por trás As almas perdidas, As filhas de Satanás
E elas sofriam Choravam de dor Mas tinham altivez de Quem não se renegou
E elas me olhavam Cheias de inveja encabada Seus olhos me corroíam Os destroços de vida
E eu sentia dor só em ver, Os olhos queria fechar E aí senti nas pálpebras Alguém as unhas cravar
Assim não pude me esquivar Daquela horrenda visão E lancei um triste olhar Para decomposição dos irmãos
E eu estava vendo, Eles mostravam as tripas A se lastimarem de dor, Mas eram vazios de amor
Seus olhos não via Só tinha um vazio escuro A derramar certo liquido Como de um podre monturo
E diziam como tinham morrido A mostrarem suas partes E se mordiam sem parar De forma alheia a toda arte
Eles pareciam se preparar Para uma conversa sem fim Quando vi que se apresentava O ser que estava atrás de mim
V Num certo momento Eu ouvir um clamar Uma ordem imposta Pro barulho calar
E então o ser que estava Sempre por trás Falou mais claramente Aqueles que já foram gente,
Já chega, já chega! Ele tem pouca idade Não vai entender Essas coisas de mortandade
Deixemo-lo que se vá Abram, saiam do caminho! Ele é um dos nossos, Não o deixemos sozinho
Ele vai caminhar Por esse mundo deles E vai um dia cansar Um dia ele vai voltar
Deixem-no, vamos, saiam! Tiremo-los as imagens mais cruéis Dessa noite que lhe é terrífica Pra ele achar que tem esperança Em sua perdida andança
VI E então Eu fui me encontrando Enquanto no alto chegava E tive a sensação De que me fui atraído Ao mundo das almas danadas.
E então lá do alto Ainda olhei para trás E vi o Campo da Paz Com uma sensação contumaz
Depois eu fui andando Como se dos ossos minha Carne pendesse, e eu sentia Como se tudo tremesse
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Voltei do meu destino Quando o dia estava raiando E não vi mais nada daquilo E então eu pensei, Foi o sono, foi o sono... Acho que ando sonhando...
Mas até hoje eu penso Que tem alguém me observando.
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