
AUSÊNCIA (indrisos conjugados)
Data 09/05/2009 22:23:37 | Tópico: Poemas
| I
O que tens a me dizer agora Que já vai alta e avançada a hora E as nossas almas tanto se confundem?
Se ao calar-me surge o teu nome E um calor em brasa me consome Sob as lembranças todas que nos unem.
No quarto as horas, em insônia, voam.
No dorso meu as noites se amontoam.
II
E eu que nem sombra sou de Atlas, Pra sustentar a noite e estrelas altas E nem a lua cabe em meu sorriso,
Fico a rolar pelos lençóis, insone, Qual pena leve n’olho do ciclone, Perdendo o sono ao soar dos guisos.
E os latidos dos cães ao longe ecoam;
E as horas todas no teu mar escoam.
III
Pelas marolas vão meus pensamentos, Como jangadas ao sabor dos ventos Que atormentados sopram-lhes as velas.
Em plena madrugada vou singrando, Os ventos irascíveis vão uivando Nos meus ouvidos, alto, o nome dela.
As horas todas feito vagas soam.
Na arrebentação rugindo me atordoam.
IV
Agora em meu leito como náufrago, Sentindo, da ausência, o toque áspero, Vou recolhendo o que restou de saldo:
Uma imensa dor, um modo trôpego, No rosto opaca cor, um pulso rápido... O que sobrou de mim sob o rescaldo.
As horas todas queimam, incendeiam;
As minhas cinzas soltas devaneiam.
V
Quando ao amanhecer a brisa leve Me presenteia com um sono breve, Vejo-me em sonho a beijar-te a face...
E a penumbra ganha colorido, E o meu olhar se enche de sentido Sobre o calor divino desse enlace.
As nossas horas todas se confundem
Sob as lembranças tantas que nos unem.
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Frederico Salvo
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