
A CARTOMANTE
Data 28/04/2009 11:09:45 | Tópico: Contos -> Humor
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Depois que o namorado da Ritinha terminou o namoro com ela, esta ficou muito contrariada. Sua contrariedade era maior, em virtude de não ter sido ela que tivesse terminado o namoro. Alex, seu irmão, quando soube do acontecido, veio falar com a irmã, acompanhado da namorada que, ao saber do acontecido com a Ritinha, propôs: - Rita, fiquei sabendo que há uma mulher em São Domingos que põe cartas e, segundo dizem, ela acerta tudo. Vamos visitá-la para saber sobre nosso futuro? Às vezes a curiosidade torna-se mais importante que o bom-senso e, sendo assim, os três resolveram deslocar-se até a cidade para consultar a cartomante que foi tão bem recomendada. Nenhum dos três sabia o endereço da mulher. Mas a cidade era pequena e, como diz o ditado, “quem tem boca vai a Roma”, resolveram arriscar e ir até o vilarejo para consultar a tal mulher. Alex, depois de dirigir por mais de meia hora por uma estrada de terra, esburacada e com muita poeira chegou a São Domingos. A cidade fica no estado do Pará, às margens da Rodovia Transamazônica. Em virtude da distância e aproveitando a oportunidade do dia de sábado, resolveram que todos fariam uma consulta com a mulher. Alex, por ser homem, seria o primeiro a ser atendido. O problema continuava a ser descobrir o local onde a mulher morava, já que não tinham o endereço dela. Como não sabiam, iriam perguntar aos moradores locais que, decerto, saberiam informar-lhes o local onde a cartomante morava. Logo que passaram pelo posto de combustível que ficava na entrada da cidade, na rodovia Transamazônica, pararam um transeunte que vinha em sentido contrário, pedalando a bicicleta. Alex, com toda a educação, falou: -Bom dia, o senhor sabe onde mora uma mulher que põe cartas? O morador da cidade, acostumado com perguntas de pessoas que não conheciam a cidade e querendo ajudar os visitantes, informou-lhes da seguinte forma: - Você vai seguindo por esta rua até chegar num pé de manga; quando chegar lá, vira á esquerda e segue até encontrar a pensão da dona Maricota. Na pensão pergunte lá que todo mundo sabe. A informação pareceu dar uma injeção de ânimo ao trio que, após a ouvirem , sorriram. Foram seguindo, olhando atentamente para não se perderem e cada um dos três guardava com detalhes as recomendações do homem que havia sido interpelado no caminho. Ao chegarem à mangueira, notaram que esta se encontrava repleta de frutos, mas que ainda se encontravam verdes. Ainda era o mês junho. Seguindo as instruções recebidas, viraram à esquerda e foram seguindo até chegar à pensão da Maricota. A casa antiga parecia que nunca tinha sido pintada, estava bastante estragada. Bem perto do telhado uma tabuleta indicava o local. Aconteceu, no entanto, que a porta da pensão naquela hora do dia encontrava-se fechada e não havia ninguém para informar o endereço da mulher que eles procuravam. Ainda era bem cedo. Nos fins de semana alguns moradores costumam dormir um pouco mais. Se fosse domingo, haveria mais gente na rua. A missa dominical obrigava muitos a se levantarem cedo. A vida no interior é diferente das grandes cidades. Meio desanimados e frustrados, tentavam encontrar alguém que lhes complementasse a informação que haviam recebido anteriormente. Alex ligou o carro e saiu do local, dirigindo bem devagar, tentando encontrar alguém que pudesse dar-lhe a informação de que precisava. Quando já pensava em desistir, viu, sentado na calçada, numa casa bem mais à frente, um senhor de idade, que soltava suas baforadas de fumaça do cigarro de palha que acabara de acender. Na calçada alta, os pés do ancião balançavam, enquanto ele ouvia o rádio de pilha que se encontrava a seu lado. Aproximaram-se devagar para não levantar poeira. Nenhuma rua da cidade tinha asfalto. Parou o carro e, após sair do veículo, dirigiu-se ao ancião e perguntou: - Bom dia, moço, o senhor sabe onde mora uma mulher que põe cartas? - Claro! Respondeu o homem. Siga em frente e logo que passar aquela casa de cor amarela, tem outra casa de cor azul, desbotada. É lá que ela mora. Todos se olharam e sorriram e foram andando rumo à casa. Chegaram ao endereço indicado e notaram que nenhum movimento havia. O Alex bateu palmas. Não havia campainha. Este costume é comum nas cidades do interior. Surgiu uma mulher morena, baixa, cabelos corridos, bastante obesa. Ao ver os jovens em frente a sua casa, perguntou: - O que vocês desejam? - Rita, que parecia naquele momento mais interessada em saber sobre o seu destino, foi logo perguntando: - É a senhora que põe cartas? - Sim, respondeu ela, por favor, entrem. Ao entrarem, notaram que havia uma mesa velha no canto da sala com alguns papéis espalhados sobre ela. A casa tinha poucos móveis na sala. Entraram e ficaram em pé, esperando que a cartomante convidasse o primeiro para a consulta. Mas ela continuava em pé, sem falar nada. Então Rita perguntou: -É aqui mesmo que a senhora põe as cartas? -Claro! Você trouxe as cartas? Naquele momento os jovens ficaram encabulados. Não sabiam que tinham que levar o baralho para que a cartomante fizesse a consulta. ImaginavaM que ela tivesse as próprias cartas, por isso Rita perguntou mais uma vez: -A senhora não tem as cartas aqui? -Não, minha filha, você tem que trazer. Afinal não existe carta pronta. Você tem que escrever. Eu apenas ponho as cartas. -Escrever? Como, a senhora não tem o baralho pronto? -Baralho, que história é esta? Eu apenas coloco as cartas no correio. Ao ouvirem a última frase, começaram a rir e, mesmo sem jeito, foram pedindo desculpas pelo engano e saíram da casa. Quando o carro foi ligado, Alex acelerou o mais que pôde. Não queria que alguém soubesse do grande mico que haviam pago. A mulher que punha cartas era apenas uma agente dos correios do pequeno povoado. Talvez houvesse até uma cartomante na cidade, porém os enganos e os erros os haviam levado àquela casa. Restava somente desistirem e irem embora para não correrem o risco de serem descobertos. Somente dias depois tiveram coragem de contar aos pais o fiasco do ocorrido. Dois anos depois, quando uma amiga de Rita convidou-a a visitar uma cartomante para saber sobre o seu futuro, esta perguntou: -Em que cidade ela mora? -É aqui mesmo, por quê? Rita não queria que a amiga soubesse do mico que pagara, então disse: - Não é por nada, somente por curiosidade. E segundos depois começou uma sonora gargalhada. A amiga, sem nada entender, apenas sorriu.
27/08/06-VEM
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