
A Segunda Gaveta
Data 21/05/2007 21:44:26 | Tópico: Poemas
| Acordei sem nada. Sem nada porque nem o nada acordou comigo. Acordei eu. Vazio como anfiteatros de cadeiras alinhadas a pano vermelho coçado. Esse género de vazio. Procurei no meio das costas, na boca do estômago e no céu da boca, atrás dos olhos, no aperto da barriga, nas palmas das mãos e na ponta dos dedos. Em todos os sítios onde normalmente sinto a tua presença. Abri a medo a segunda gaveta do meu peito. A contar de cima. Aquela que conheces bem. Aquela gaveta que tem o teu cheiro, que é a tua casa em mim, e que tu, nem sei bem porquê, costumas chamar de coração. Essa mesmo. Mas tu não estavas lá. Ainda levantei o sol às janelas, para que ele te brilhasse as cores. Mas não estavas mesmo lá. A minha garganta teve vontade de gritar o teu nome mas a língua não lhe soube os contornos. Os meus olhos tentaram olhar por dentro das gavetas do meu peito, mas só te encontraram as cinzas nas gavetas das costas. Então fiquei a olhar o vazio. O vazio das gavetas, o vazio das cadeiras alinhadas a pano vermelho coçado. Fiquei a olhar o brilho do nada, a pensar em tudo. E soube que te esqueci.
|
|