Dias que me passam ao lado

Data 21/05/2007 21:14:17 | Tópico: Prosas Poéticas

Dias que me passam ao lado.
São dias que me passam ao lado quando neles não encontro os minutos para esperar pelo comboio.
Tu acaricias o pêlo de um cão que encontras na rua e sorris para o seu dono. É aquele magnetismo que muitas vezes gostava de ter. Aquela empatia com outras pessoas, com desconhecidos, com os donos dos cães que passeiam na rua e com as senhoras das pastelarias.
Tu existes de bom gosto. Como os dias quando me passam ao lado se tornam superiores a mim. Como se eu me tornasse parte dos minutos em que se espera pelo comboio. Assim tu existes de bom gosto. E eu, eu tenho gosto que existas e pouco mais, enquadro na tua aura as cores mais quebradas.
Eu sou o teu verde e o teu azul.
E o verde e o azul reflectem os dias em que apanho o comboio. Em que me encosto ao vidro da janela e olho os minutos que me passaram ao lado. E recordo o teu verde e o teu azul. Recordo o que existes para mim enquanto turvo o vidro com a minha respiração.
E então existo também de bom gosto. Como os dias em que apanho o comboio.
Aquele comboio verde e azul com os vidros turvos da minha respiração que agora existe de bom gosto.
O comboio move-se. Devagarinho por enquanto. Os donos dos cães sorriem e acenam as senhoras das pastelarias.
Deixamos agora para trás os dias que me passam ao lado…
E seguimos a todo o vapor em direcção a nós.


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