
Ancorada a píncaros bravios
Data 20/05/2007 22:01:31 | Tópico: Poemas -> Sombrios
| Acorda o corpo elevado em cordas em ascensão, na lírica beleza do despertar das horas. No incenso isento de um navio no alto mar. No ar denso e morno, nos cheiros graves dos pinhais, das águas desapegadas do olhar dos signos outonais, no risco das rugas plásticas e imprecisas.
Madrugou frio este espaço indiferente de terra pura ancorada a píncaros bravios nos bicos da gaivota dos silêncios.
Vestal dos ventos, desguarneço-me na expressão epistolar do corpo, atravesso nua o portal do tempo.
Ofereço a pele à vaga, ao verbo, à brisa da palavra. Na ansiedade. Na saudade. No delírio. Sou eu própria, oferenda, círio.
Quem sou? Que és? Ondina verde o vocábulo em que me amotino e me encerro. Acordo rio, no rosto, no vulto, na forma esfíngica de pássaros de asas de cetim. Busco-te de novo, no meu corpo, busco-me em ti…
Regresso ao signo. Ao secular acervo, solitário, magoado, madrugado em cerdas. Crinas soltas no brilho galopado do verbo e no desejo flautista. No fausto d'ametista.
Matinou-se em mim alva ferida no marulho em murmúrio do mar aqui ao lado, no sussurro dúctil do teu nome.
Ancorada a píncaros bravios matinou a Lua ausente de ti, amado.
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