
o homem sem leme
Data 09/04/2009 19:57:47 | Tópico: Prosas Poéticas
| Ali, imóvel e abstracto, num ritual de pensador… quantas vezes horas sem fim num diálogo surdo com um livro aberto, que não lia, com uma resma de folhas soltas, que não escrevia… ali, deitado às escuras nas duras tábuas dum soalho fixando um local longínquo do tecto, que não via, tentando cerrar as pálpebras num sono que não vinha, divagando por recordações do passado, que não esquecia… ali sentado em húmido canto de jardim, que não sentia, abstraído de tudo e todos, olhando os circunspectos veraneantes que há muitos verões por ali via, sem os ver,
passava a vida à procura do poema que nunca fez ou deixara por escrever.
Quantas vezes se embriagava nas palavras com que a si mesmo mentia naquelas noites mal passadas a caminho dum tempo infinito em rituais de prazer…
E desfolhava as flores que alguém lhe oferecera e em completo desalinho de sentimentos se interrogava sem se conseguir decifrar.
Neste vaivém de angústias, sobre o que sentia e dizia não sentir, tecidas nas suas fantasias desvairadas, descobria nas profundezas do Ser, incertezas feitas de verdades escondidas e mentiras decifradas.
E na noite desse tempo sem tempo e sem idade, nessas longas noites de inspiração em que incansavelmente escrevia devorando incontáveis folhas de papel neste escrever desvairado e febril, quase de louco, tinha sonhos de canções dentro da noite que o embalavam numa penumbra de silêncio que o tempo lhe oferecia.
Eram sonhos desnudados em palavras por dizer ou poemas por escrever numa certa melodia.
Eram os desvarios do homem sem leme. E naquele seu diálogo, de surdos, continuava em esquizofrénicas divagações escrevendo no tempo onde dizia nada ou deixava tudo por dizer.
Assim pensava ele. De si e dos seus escritos alquímicos e febris. “Chamem-me o que quiserem…” (gritava)
E esbracejava, furibundo, desenhando mil arabescos no ar com a ponteira do guarda-chuva que sempre o acompanhava. Chovesse ou fizesse sol. Era o seu companheiro de inglórias, e infortúnios, e desventuras… o confidente amigo em quem, agora, apenas confiava.
Este homem sem leme, agarrado à bússola do nada que o orientava para norte incerto de coisa nenhuma, compunha poemas feitos de pedaços de loucura. A sua loucura. A sua forma de vida.
Por vezes ouviam-se-lhe risos satânicos que ecoavam nos claustros seiscentistas por onde se passeava nos seus momentos lúcidos de loucura ignorada.
E continuava na sua voz transtornada, transfigurando-se, apontando o indefinível no vácuo como se para o invisível falasse. Ou, como se, dirigindo-se a um ente invisível que só ele tivesse o condão de ver em aparição celestial, quisesse culpar da sua sina.
”…dobrem-me os caminhos que por mim tão desvendados os meus passos percorreram já mil vezes em estradas poeirentas, enlameadas, pelos montes e serras e quebradas fizesse chuva ou mesmo vento. Troquem-me as voltas. Sim, troquem-me as voltas todas, enleiem-me em vossas curvas mal traçadas, "tentem que não seja o que ainda sou, que meus passos me levam, e levarão, onde sempre quero ir... (e sei que vou!."
do Autor in "O Livro das Inquietações" - Poema II
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