
Embarcar na cama ao lado
Data 13/05/2007 12:52:17 | Tópico: Acrósticos
| Embarcar na cama ao lado
Abriu o caderno lentamente mais ou menos no seu meio e escancarou-lhe as páginas em cima da mesa. Hoje decidiu rabiscar uma palavra vagabunda e uma linha escrita ontem é terminada apressadamente com um ponto final desfocado.
Salta algumas folhas distraidamente ainda habituada à precisão do toque de um teclado e com as letras cabisbaixas chora no papel. Mas no seu pranto não se esquece de perseguir a fantasia com a mãos sujas de tinta e vai pintando um mundo que não é o seu com palavras tímidas expelidas da boca.
Não é uma mulher original... Nem sequer se distingue das outras que o homem esculpiu para decorar a monotonia do seu jardim. Não tem asas de anjo mas voa rente aos sonhos e rouba-lhes todas as noites pedaços do seu encanto apenas porque isso a faz sorrir.
Pega fogo aos olhos com paixão na certeza de ver o pôr do sol forrado no olhar e a escuridão da alma reduzida a cinzas. Perde-se em desejos carnais deitada num colchão de delírios com os lençóis cobrindo-lhe os seios apetecidos. Atinge a lua num grito agudo enquanto o corpo treme de prazer aguardando ansiosamente a chegada da próxima onda musculosa.
Mas não se sente segura naquele mar de abraços inconstantes A pobre mulher docemente sonhadora...
Então, quando a madrugada bate à janela desce do barco das ilusões e com as unhas vai abrindo estradas na esperança de finalmente descansar na segurança da cama ao lado.
Daniela Pereira
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