
Anistia para Bocage!
Data 15/03/2009 11:21:59 | Tópico: Textos -> Crítica
| Paulo Monteiro (*)
Estamos a menos de dois anos do bicentenário da morte do poeta Manoel Maria l’Hedous Barbosa du Bocage, falecido no dia 2 de dezembro de 1805. A manhã daquele dia era fria e chuvosa em Lisboa, contam os biógrafos, e o poeta faleceu devido a um aneurisma. Tinha pouco mais de 39 anos, pois nascera em Setúbal a 7 de setembro de 1776, filho de José Luiz Soares de Barbosa, que trocara o trabalho de juiz pelo de advogado, e de Mariana Joaquina Xavier Lestof du Bocage, filha de um marinheiro francês que desertara de sua armada passando a servir ao rei de Portugal. Aos 10 anos o poeta perdeu a mãe, ficando órfão juntamente com seu irmão Gil, mais velho, o morgado da família, e as irmãs Maria Francisca e Maria Eugênia, morta muito moça e a quem o poeta dedicaria um dos seus mais sentidos sonetos: De radiosas virtudes escoltada Deste imaturo adeus ao mundo triste Co’a mente no almo Pólo, aonde existe Bem que sempre se goza e nunca enfada.
À fouce, a segar vidas destinada, Mansíssima cordeira, o colo uniste; O que é do Céu ao Céu restituíste, Restituíste ao Nada o que é do Nada.
E inda gemo, inda choro, alma querida, Teu fado amigo, tua dita imensa, Que em vez de pranto a júbilo convida!
Ah! pio acordo minha mágoa vença; É cativeiro para o justo a vida, A morte para o justo é recompensa. Órfão de mãe, foge de casa aos 16 anos, juntamente com o irmão, para ingressar na Marinha. E passa uma vida dividida entre as atividades de marinheiro, das quais acaba se afastando, e os improvisos, muitas vezes pornográficos, nos botequins de Lisboa, “Devoto incensador de mil deidades/ (Digo, de moças mil) num só momento,/ E somente no altar amando os frades,”, como ele mesmo se retrata num soneto famoso. Retorna à Marinha. Parte para o Oriente, passando pelo Brasil. Deserta. É anistiado. Volta a Portugal, onde deixara uma noiva, a Gertrúria dos seus poemas. Na Ásia recebe a notícia de que ela estava noiva de outro. E desabafa: Do Mandovi na margem reclinado, Chorei debalde minha negra sina, Qual o mísero vate de Corina Nas tomitanas praias desterrado.
Mais duro fez ali meu duro fado Da vil Calúnia a língua viperina; Até que aos mares da longínqua China Fui por bravos tufões arremessado.
Atassalou-me a serpe que devora Tantos mil; perseguiu-me o grão gigante Que no terrível promontório mora.
Por bárbaros sertões gemi, vagante; Falta-me inda o pior, falta-me agora Ver Gertrúria nos braços doutro amante. Três imagens estão presentes em sua mente de exilado: Ovídio, “o vate de Corina”, Camões, também perseguido pelo “grão gigante”, e a “alva Gertrúria”. Volta e encontra D. Gertrudes Margarida da Cunha de Eça Castelo Branco casada com o advogado Gil du Bocage. Alguns biógrafos acreditam que essa era a Gertrudes inspiradora de muitos e belos poemas, além de sua “aventura no Oriente”. Retoma a vida boêmia. Ingressa na Nova Arcádia, que reúne os poetas portugueses da época. Publica livros que alcançam êxito. Briga com os outros árcades. Polemiza. Satiriza os costumes da época. Afasta-se da Arcádia. Sirva de exemplo o soneto que faz parte de sua obra que circula semiclandestinamente, dedicada ao mulato Domingos Caldas Barbosa, padre e poeta: Nojenta prole da rainha Ginga, Sabujento ladrador, cara de mico, Loquaz saguim, burlesco Teodorico, Osga torrada, estúpido rezinga;
E não de acuso de poeta pinga; Tens lido o mestre Inácio, e o bom Supico; De ocas idéias tens o casco rico, Mas teus versos tresandam a catinga;
Se a tua musa nos outeiros campa, Se ao Miranda fizeste ode demente, E o mais, que ao mundo estólido se incampa:
É porque sendo, oh! Caldas, tão somente Um cafre, um gozo, um néscio, um pavo, um trapa Queres meter nariz no cu de gente. É preso acusado de crimes contra o Estado e a Igreja. Libertado, passa a ganhar a vida como tradutor, para sustentar a irmã e uma sobrinha pequena. Continua a publicar seus versos. Contraditório, como ele mesmo o reconhece. Era consciente do seu valor literário e do sentido real dos seus versos, “que foram com violência /Escritos pela mão do Fingimento, /Cantados pela voz da Dependência”. O Fingimento faz de seus poemas pré-românticos, alguns deles até ultra-românticos; a Dependência se manifesta nos versos laudatórios. Essa contraditoriedade é que faz o poeta, e um dos maiores da Língua Portuguesa. O mais interessante é que, quase duzentos anos depois de morto, Bocage continua censurado e mais conhecido pelas piadas ou anedotas inventadas a seu respeito. Essa censura vai muito além da herança inquisitorial, tanto que o Ministério da Educação de Portugal, em pleno século XXI, andou impondo limites ao estudo de sua obra nas escolas lusitanas. Essa medida lembra disposições do fascismo salazarista e do ultramontanismo de alguns religiosos contra a memória da alentejana Florbela Espanca. Como se o Estado tivesse poder de estabelecer o cânone artístico. O verdadeiro Bocage é desconhecido, inclusive nos meios cultos e letrados. Está na hora de um amplo movimento para que o poeta seja anistiado, abrindo-se as portas inquisitorais para que sua obra veja a luz do sol. Anistia para Bocage! (Texto publicado no Jornal Rotta, de Passo Fundo, nos meses de janeiro e fevereiro de 2004 e no sítio Diário Vermelho, a 24 de janeiro de 2004). (*) Paulo Monteiro, autor de centenas de artigos e ensaios sobre temas literários e culturais, pertence à Academia Passo-Fundense de Letras e a diversas entidades culturais do Brasil e do Exterior.
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