
sou um louco que sabe tocar acordeão (2)
Data 10/03/2009 10:13:56 | Tópico: Poemas
| (quando a morte me levar não ergam bandeiras negras. encham sim os copos com vinho; mas cuidado que a Gula azeda a garganta!)
Ó FASCINADOS Produtores de Lixívia! Será que um dia da vossa produção dará para desinfectar o mundo? Então dois dias Que venham lá três! Três dias sem sair de casa Três hipóteses para sobreviver Três terços de manhã à tarde e à noite Esta mosquitada vai toda de uma vez!
O estudante precisa de um canudo E eu preciso de um canudo para bater no estudante Aprender é aqui De A a Z nas estantes Como o borrachão nas adegas A teoria não muda a fralda a ninguém Não foi preciso esperar pela luz Eu nunca me borrei! Sou auto-suficiente Na tropa toquei clarim e mandei o exército regressar
Elogiaram-me o pescoço Que daria para bom laço Disseram A sorte é que tenho amigos corruptos E num empurrão elevaram-me a mártir Os heróis só aparecem nas estreias A mim espetaram-me com bíblias na mão Para vender de porta a porta Na primeira porta que bati beijaram-me os pés Só porque eu tinha cabelos compridos e as vestes compridas
Mudei de marca de cigarros Os intelectuais souberam logo!
Eu cá sou de mudanças Vou ao Paulista porque posso ficar a dever E tem boas entradas
Demitido sou noutras ruas Um dia engoli uma bola de queijo E ninguém me deu valor Toquei Bach com os dedos metidos na boca E fizeram-me olhos negros
A inteligência não sai na bica da fonte Acreditem! Eu já tentei! Meu cérebro gorduroso apostou tudo numa rixa Se disser que ganhei minto
O maior pecado é não pecar e ver os outros pecar O maior cemitério é o que está a um palmo acima das nossas cabeças Ou talvez menos Lindas paisagens! Lindos azulejos! Lindos seios que aquela mulher tem! O eco ecoa sempre que a ponte me tenta
Não! Não vou acender o isqueiro quando houver fuga de gás! Não vou a Roma só porque dizem que lá a fé é mais barata! Aprendi a andar de bicicleta tarde Mas olhem como eu pedalo! Faço curvas Contra-curvas Tiro as mãos do volante Sabia que é tudo uma questão de sistemas emparelhados? Domino papagaios como nunca dominei uma mulher Fico para ali horas a vê-lo voar E eu na terra A trocar os fios da corrente eléctrica a ver no que dá
A ganância já se vende nas bancas Os jornais falarão de mim quando não houver massacres Manifestações Vítimas violadas Santos roubados Congressos de pívias Estarei eu Diante e exposto
A dar sangue aos cabeçalhos A dar cursos de divergências A tomar o lado do contraditório E tudo: ah! Que lindas são as paisagens maciças! Os ventos nem conseguem mexer uma folha! Nada fecunde Nada transmite ao Outro o que o Outro disse Nada mais vai parar aos museus Toda a História será revista por bisontes As clínicas a tornarem-se casas de passe Nada será mais Ontem O Futuro tem a data do século anterior Nos blocos operatórios joga-se à bisca
Quem mexer na minha cabeça terá de responder! E aviso que tenho amigos maus Fazem truques de maldade Mastigam livros inteiros do Saramago em vez de chiclete!
A minha missão é pôr fim aos fingimentos Tenho um mindinho que detecta tudo Quem se mexer está a levar!
Os meus lábios estão inclinados para a morte Mas não me empurrem!
A minha única moral é ser contra os moralistas Tenho uma mulher que me abre o lençol Prepara-me o lanche e regressa ao mar
O mito há-de ser mitigado Colocado na batedeira a mil rotações
Não julguem que eu não amo Amo! Amo os glaciares que estão derretendo Amo os ombros do homem que carrega Amo a liga da mulher oferecida Amo o espectáculo dos amantes Amo o pecador à saída da igreja Amo a plasticidade com que me beijam!
Ó noites fartas ó noites vadias! Tomai meu pulso enquanto bate O elixir já se esgotou Restas-me tu ó mesa dos condenados! Ó licenciada em vampirismo! Verifica-me o sal antes de beijar a pedra Esta pedra que aqui vês a servir de janela Tenho pena que não haja árvores para subir Era puto e lembro-me que subia subia subia Agora Que a tísica sede me toma Fico aqui Na escrivaninha do tempo No silêncio intemporal Coleccionando raridades Lançando beijos às moças das fábricas.
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