
Não existes
Data 13/03/2009 20:44:31 | Tópico: Prosas Poéticas
| 1
Vou esquecer De gritar por ti E, tão pouco, lembrar Que existes e te perdes Nesta floresta de equívocos. Toma por certo O meu pensamento. Acredita no que regurgito. Represento, cegamente, A tua salvação E a forma de como, Em última circunstância, Encaras o teu eu.
2
Corre loucamente Na direcção do infinito, e Sementes de inconsciência Saltam de ti. A tua amplitude é diminuta E, nem de soslaio, Vislumbro o teu olhar. Jamais a neblina te trará o esquecimento E, consequentemente, A aurora te dará esperança. Simplesmente esquece Que a minha existência Te domina a razão.
3
Não quero recordar Aquele dia, na minha casa, Onde me encontraste Despido, cheio de ilusões. Afinal tu, a maior De todas as que me Assolam a razão. Sentindo a água fervilhar, Saída das entranhas, Traduz o desespero Das minhas causas, Que sem me aperceber Vãs se tornaram.
4
Dedica-te à sapiência De leituras inexactas, Próprias do teu sistema, Onde os teus caracteres, na definição, Não se coadunam com os meus; Daí este confronto, onde O teu eu não complementa o meu. Agora percebo o porquê De nunca teres falado A minha língua, nem sequer, A facilidade de traduzir, Em gestos suaves, toda A tua sensibilidade.
5
Tornaste a vir, Mas não quero; Não me apetece esse desgosto, Muito menos o teu cheiro. Prefiro metamorfosear-me frasco E envolver uma nova essência. Não a tua, gasta e supérflua. Colocarei um novo rótulo, Dando a conhecer A nova esperança, A verdade odorante De um novo perfume, Do qual já não fazes parte.
6
Nem lugar tem na minha estante, O depósito legal do teu livro. Passou de validade, e Apenas perdura no Âmago da mais ténue recordação. Li e reli as palavras Que um dia lembrei de acreditar. Sujaram a minha consciência, Tornando-a inócua e inibida. Jamais, na integra, voltarei A sensibilizar a tua atenção em causas minhas. Ficarei, agora, inerte Ao teu iníquo apelo.
7
Não serei o mesmo ingénuo. Inferir em ti, seria, Agora, infrutífero. Capturar a tua alma Não está nos meus desígnios. Ah! Como desejarias Que vestisse o meu hábito E atendesse às tuas preces. Não! Chega de lamento. Desta vez não irei ao casino. Não será a roleta a desenhar o meu destino. Não serás a dama do meu jogo. Não te pedirei para dançar.
8
A melodia é diferente. Agora mais grave, outrora muito suave. O que cantas não se ouve; Nem o teu som sai, ruidosamente, Daquela velha grafonola. Não és vinil. CD nunca serás. Para sempre analógica... A qualidade alheia-se de ti. Nem que graves de novo, Comprarei a tua música. Afinal, nunca foste novidade. Adquiri-te em saldos e, certamente, Com defeito de fabrico.
9
Porque nunca gostaste das flores? Daquelas que te ofereci Enfeitadas com o luar E o calor do sol ao mesmo tempo. Certamente nem as cheiraste. Viste-as, ao menos? Reparaste na silhueta Que desenhei nos grãos de pólen? Representava a volúpia dos teus seios. Como me ignoraste! Nem isso viste. Não mereces que escreva E discorra sobre ti.
10
Tornaste menos que zero Na matemática dos sentidos. Nem na mais simples soma Te consigo inserir. O resto que sobra Não chega para te complementar, e O terço não serve para contar. Talvez te liberte, se acreditares. Deus não te mostrou o caminho. Apenas tu o podes descobrir. Aclama para ti. Caminharás sem medo. Eu duvido!
11
O espelho reluzente Já não reflecte a tua imagem. A tua beleza deixou de ser efectiva, Nem tão pouco anseio a tua pele. Não quero o teu sexo! A tua consistência, Feita de papel velho de jornal, Sujou as minhas mãos Ao tentar pegar-lhe. Perdi as chaves que Acedem ao teu cofre e, assim, A saliva da tua boca que Possuía ao beijar-te.
12
O guarda-roupa vazio se encontra. Lá já não moram as tuas velhas roupas Que, com o tempo, As traças foram consumindo. Como vês, Nem os bichos mediaram o nosso instinto, Que, por vezes, mais selvagem seria Do que o habitat próprio A que estavam sujeitos. Mas ainda subsiste aquele trapo, Velho, é certo, e sujo Que um dia colocaste no meu travesseiro. Chegou a altura de o rasgar!
13
Alieno-me de sentir a tua presença. És tão fútil! As águas separadas são, afinal, O rio que galgo. É nele que agora desces. O acampamento dos deuses Chama por mim. Penso em ir. Já não acendo cigarros, Nem forma tenho de Contemplar outro fumo Que não aquele que Brota do que escrevo. É este o fumo que agora me vicia.
14
Desisto de ti, que não Desista das coisas francas. Ao menos, estas, não escondem Aquilo que, efectivamente, são. A ti entrego a espada Com que sempre lutei Nestas quezílias constantes e medíocres, E me fizeram encolher A sensibilidade que Agora vomito com avidez. Infelizmente para ti são Estas palavras soltas, Repito! Em sofreguidão.
15
Na floresta dos medos Perdura ainda um. Inabalável, presumo, que Me penetra o espírito e, Sinuosamente, na Memória de uma vida. Quero abolir este receio De ter de te enfrentar outra vez. Sorrio, acenando Ao vento que leva Tudo que a ti diz respeito e apaguei. Risquei, a carvão, O teu nome do meu caderno.
16
Estou confinado a mim e Ao meu ideal concreto. Ao saber fluente de uma Literatura constante Que em tempo recorde Toma de assalto o meu ego. Agora sim! Liberto de ti, Consigo discorrer sobre a vida, Assimilar o sufoco de existir Um pesadelo tão certo, Como o foste, No frenesim da minha existência!
24 de Janeiro de 2003 Este poema, escrito durante quatro anos (1999 a 2003), deu origem ao meu primeiro livro "Não Existes ou o breve manual prático de como esquecer um amor antigo" editado com a chancela da Temas Originais, com 1ª Edição em Março de 2009
|
|