
Amor Místico
Data 06/03/2009 02:28:46 | Tópico: Poemas -> Amor
| Quando a minha alma nasceu Para onde olhou primeiro, E viu tudo um nevoeiro, Foi lá cima para o céu... Que a alma nunca lhe passa De ideia a fonte da graça!
Em toda a ânsia de luz, Em toda a ânsia de gozo, Sempre aquele olhar ansioso Nesse ideal de Jesus... Nesse bem que não se exprime... Êxtase de amor sublime!
Olhava da solidão, Onde se sentia presa, Com a natural tristeza Dos ferros de uma prisão... À espera sempre da hora Que lhe raiasse a aurora!
Bem a chamavam de cá Sempre os cuidados do dia; Ela, que nunca os ouvia, Olhava, mas para lá... Donde ela mesmo viera, Donde todo o bem se espera!
Um dia (nem eu sei qual, Que em suma foi isso há tanto!) Vê com uns olhos de espanto Romper-se a névoa geral; E como um sol recortado Nesse mar enevoado...
E dentro desse clarão, Como em círculo de prata, Que imagem se lhe retrata, Fosse verdade ou visão? A mesma que ela apertava Nos braços quando sonhava.
Mas a visão, em lugar De vir cair-lhe nos braços, Voa por esses espaços Até já mal se avistar... Indo assim a luz minguando E indo-se a névoa cerrando!
E hoje a minha alma, não sei Se nessa névoa cerrada Vê tal visão embrulhada Ou nem já vestígios vê... Sei que se ainda me anima, É de olhos fitos lá cima.
João de Deus, in 'Campo de Flores'
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