
O Capão
Data 02/03/2009 09:58:10 | Tópico: Prosas Poéticas
| COMO SE FAZIA UM CAPÃO
O Senhor Alexandre da Cancela, barbeiro da minha aldeia, sentia-se cansado e sabia que não teria muitos mais anos de vida. Desde os dezoito que barbeava os lavradores da terra, cada um em seu dia certo, e já lá iam perto de setenta Invernos, frios, chuvosos e com muitos nevões pelo meio desde que nascera. Além de barbear todos os lavradores uma vez por semana, ainda arrancava dentes, curava maleitas, vendia chás e capava frangos.
Tinha filhos, mas nenhum quis seguir a profissão do pai. Já iniciara muitos outros moços na arte de barbear com navalha, mas capar frangos só ele sabia…
Todos os anos minha mãe tinha que entregar à Fidalga de Soutelo meia dúzia de capões, como parte da renda que o senhorio exigia pelo cultivo e exploração da Quinta das Eiras… Por isso eu a acompanhava muitas vezes na deslocação à Cancela, lugar onde morava o barbeiro e capador de frangos, snr. Alexandre. Eu deveria ter entre sete ou oito anos e já ajudava no transporte dos galináceos.
“O segredo é a alma do negócio”- e capar frangos com êxito era um segredo muito bem guardado que foi vendido a minha mãe por dois alqueires de milho e duas quartas de feijão manteiga…
De repente eu virei ajudante de capadeira… Minha mãe apertava os frangos com os joelhos, e eu sentado num banquinho de madeira à sua frente,segurava e afastava as pernas do frango que estava de cabeça para baixo e rabo para cima…
Com o dedo polegar e indicador direito, depenava a zona abaixo do ânus do frango e com uma lâmina de barbear abria uma passagem para dois dedos que mergulhavam no meio do intestino …
quando os retirava trazia uma “azeitoninha” avermelhada que punha numa tigela… voltava a introduzir os dedos e saía outra “azeitoninha” igual à primeira, que ia para a mesma tigela…
Depois pegava na almotolia do azeite e derramava um pouco para dentro do orifício, lubrificando os intestinos que iam mexendo conforme o frango respirava…
Com agulha e linha branca normal, costurava a incisão, tendo o cuidado de no fim, derramar mais uns pingos de azeite… A costura era polvilhada com cinza da lareira.
A segunda fase consistia em cortar a crista e as “guelras”com a tesoura da costura, derramar azeite e polvilhar com mais cinza.
Estava capado o frango.
Os próximos dois dias eram cruciais… Ficava de “quarentena” na capoeira, isolado do galo para não ser molestado e só podia beber água com umas gotas de vinagre que minha mãe adicionava no bebedouro.
As probabilidades de sucesso eram de 80%... em cada dez, morriam dois. Era uma fatalidade que toda a gente aceitava…
Quanto ao custo desta “cirurgia” nunca tive a noção do valor… o pagamento era em géneros… muitas vezes assisti à chegada de cestinhas com ovos ou pintainhos brancos, amarelos, de pescocinhos pelados ou cobertos de penugem…
Quanto a mim, aceitava com certo orgulho ser ajudante de minha mãe que me premiava com uns ovinhos mexidos com testículos e cristas de frango…
Nunca pensei no que deveriam sofrer aquelas aves, que eram mutiladas e sacrificadas para gáudio dos estômagos das fidalgas de Soutelo.
(Isto passava-se nos anos 30 e 40 , em Constance-Marco de Canaveses)
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