
A menina dos fósforos (ou um grito á indiferença)
Data 03/02/2009 11:52:52 | Tópico: Poemas
| Na rua escura, frio estava A neve não párava de cair, O vento sempre a fluir, Tão forte que a roupa furava.
-Quem quer fósforos baratos? Assim a menina apregoa, Antes que a alma lhe doa, Aos transeuntes ingratos
De pobres chinelos calçados Entretanto por ali perdidos Algures na neve escondidos Lindos cabelos encaracolados
Sua pele de frio roxa Emprestava-lhe mais beleza Lábios carmins, olhar de pureza, Vestido que não lhe tapa a coxa
Mas o dia corria-lhe mal Cheia de fome abandono e frio Em longo e triste delírio, Aconchegou-se num beiral
Para casa assim não iria Sem os fósforos vender, O pai irado ia-lhe bater Ainda mais dor padeceria.
Moravam em água-furtada Frio e chuva por todo o lado. A mãe, tinha-se libertado Pela lei da morte arrancada
Precisava a menina de calor Tremente de frio e tristeza Vivendo na triste certeza De uma vida em constante dor
Decidiu um fósforo acender Uma chama acesa e acolhedora, Olhada assim em ar de sonhadora Naquela luz conseguiu ver
Uma linda lareira refulgente Onde ardia uma linda chama Ia sair pelo calor daquele drama Aquecer-se na luz incandescente
Mas o fósforo logo apagou Voltou a menina a tiritar Daquele frio de rachar, De outro fósforo se lembrou
Logo uma mesa lhe apareceu, Em toalha alva contra a luz Uma mesa de comida que reluz, Que belo manjar lhe apeteceu
Quando ia para comer E a longa fome matar, A barriga da miséria tirar, O fósforo deixou de arder
Rápido, a menina outro acendeu Apareceu a avó em aura de felicidade Com seu olhar perene de caridade -vem! - Disse, e o braço lhe estendeu
A menina deu-lhe logo a mão Antes que o fósforo apagasse E a sua avó também levasse A felicidade do seu coração
Tomou a neta em seus braços E levantando da terra os pés Assim sem mais demoras nem revés Fizeram das nuvens doces enlaços
Voaram num rasto de luz e cor Assim de repente sem mais dor As duas abraçadas em puro ardor O céu curvou-se ao seu esplendor
Nasceu o dia o cadáver ignorando Da menina que ainda sorria Da morte que já não padecia E merecido descanso gozando
(adaptado do conto de Hans Christian Andersen)
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