
Jesus Cristo nordestino
Data 01/02/2009 14:59:43 | Tópico: Poemas
| Veja minhas mãos pregadas na cruz Veja o sangue que nelas escorre E será todo em vão este sofrimento? Em um berço bem pobre eu nasci Numa terra castigada pelo sol Terra seca que arde e castiga Os filhos da dolorosa agonia Que de sede e de fome Morrem todos os dias Cada qual com sua alegria E de onde vem tanta força? Das mão calejadas de esperança? O tempo é cruel e condena Os filhos da terra vermelha De onde eu vim não tem chuva O rio onde me batizei, secou Não multipliquei pães Para alimentar o meu povo Mas dei-lhes perseverança Ungiram meus pés com sândalo e jasmim Minhas mãos também lavaram Seus rostos, com a leveza de um serafim Na minha terra eu era rei Agora olhe pra mim Pregado nesta cruz de pinho Com uma coroa de espinhos Chegando perto do fim Minha dor não se compara Com a dor de meu povo Se pudesse, não duvide Faria tudo de novo Arrancaria de minha própria carne Um pedaço de mim Me jogaram pedras, me cuspiram E as marcas das lâminas que me cortaram Ainda latejam em meu corpo Mas tal dor não se compara Com a dor de meu povo Que vivem na indiferença da ingratidão No esquecimento e no abandono Quando eu era menino Eu lia Suassuna ao lado de minha mãe Aparecida Que hoje chora com meus irmãos Nos pés de minha cruz adormecida Não chore mais minha mãe
Vá dar de comer aos meus irmãos Deixe-me ficar aqui no sertão A ponta da lança faz sangrar o meu peito Nesta terra seca não nasce nenhuma flor Mas deixarei aqui plantado De semente em semente Até florescer o amor Não chore mais, minha mãe Enxuga tuas lágrimas com o Vento que sopra em teu rosto Vivi ao teu lado todos os dias Da minha vida E tu nunca deixou-me faltar nada Quando nossas cabras morreram de fome E o sertão parecia o inferno Tirastes força não sei de onde E sobrevivemos junto com os restos Foi na terra de todos os santos Que encontrei meu grande amor “Na casa dos Budas ditosos” Entreguei-me nos braços de Madalena Amada morena-sereia Que me fez caminhar sobre as águas Talvez ela lhe escreva uma carta Ela me espera nos lençóis do Maranhão Carregando nosso filho no ventre Mãe, imagino o que sentes Ao ver teu filho em flagelos Mas na altura em que meu espírito Se encontra, não há dor O sofrimento se transforma em esperança Quando a fé é maior Somos todos filhos do mesmo pai Mas a tempestade que agora cobre os céus É uma lágrima que está prestes a cair de seu rosto Dê graças a Deus, mãe Hoje vai chover no sertão Hoje tocará na caatinga uma nova canção Vá embora mãe, não sofra tanto por mim Deixe essa terra seca dormir Nos braços desta noite sem fim Que agora se aproxima de nós Vá minha mãe, e reze á padre Cicero A promessa se cumpriu Não levo todos os pecados comigo É impossível levar todos os pecados do mundo Mas levo o sofrimento de nosso povo Que a cada dia é castigado, e sofri Nas mãos dos novos romanos
Aqueles que tem tudo Quase sempre não tem nada A felicidade não se compra A felicidade é de graça “ Para os bons de coração” Que mesmo não tendo nada Dividem o pouco que tem É por estes que morro nesta cruz Vale a pena morrer pelos bons Um dia irão de lembrar deste acontecido Sei que não serei esquecido neste mundo de Deus Mãe? Quando eu morrer Peça para João fazer uma fogueira bem grande Quero que meu espírito chegue As mãos do pai junto com uma cantiga De uma ciranda de rodas Agora vá minha mãe Hoje vai chover no sertão Hoje na caatinga tocará uma nova canção Hoje Severino, Jesus Cristo nordestino Será elevado ao sagrado coração.
......E enquanto sua mãe chorava Severino cantava, seu último lamento....... “Quando oiei a terra ardendo Com a fogueira de São João Eu preguntei a Deus do céu, ai Por que tamanha judiação.......”
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