
Madrugaram-se-me os olhos no vazio
Data 04/05/2007 20:02:51 | Tópico: Poemas -> Sombrios
| Madrugaram-me os meus olhos no vazio dos teus, permanentemente distantes. Madrugaram-me os olhos doloridos num nórdico e salgado rio de alabastro.
Impera a indiferença, na nebulosa ousadia de ousar solitária, insulada travessia. Madrugaram-se-me os olhos, amado, no rastro de um fundo escorrido de lastro.
Mutilo o frio, abocanho a alma, sem sentido, na ferida chama morna, na mágoa acicatada, que te chama, me consome e me devora a toda a hora fragmentada p'lo zumbido. Ventos agulhados, povoados de memória, numa jangada de pedra, sem lemos derivada.
Que venha a noite, breve e concisa. Que venha já, urgente, omissa e silenciada. Que me tome escalavrada, derradeira, inteira. Que me possua ousada na bonança doentia de cada libertina alvorada.
Que venha a noite perpetuada madrugar no verde musguento deste olhar. Que os vermes me tomem por pasto, por alimento, no mistério da vida renovada.
E que nesse instante momento sinta, por fim, doce alento da carícia de um só beijo da tua boca, sobre a minha boca gelada. E que se faça em mim mar inteiro no ventre da madrugada.
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