
fragmento inicial
Data 20/01/2009 20:01:25 | Tópico: Poemas
| a minha morte deita-se ao meu colo
enquanto escrevo
palavras como luz criança
ou verso
ou
quando escrevo
exactamente o reverso
ela permanece
dormitando
sobre o meu colo
enquanto escrevo
no entanto
se escrevo tempo
ela corre
quer chegar mais depressa
não sei onde
mas sei que escrevo tempo e ela vai
e eu vou com ela
enquanto escrevo
e sinto que sou
a sua sombra como há pouco li
e senti
num dos versos
de rebordão navarro
persigo a minha morte porque é minha
enquanto escrevo
a palavra tempo
ou a palavra rio
e fecho a palavra porta
da palavra casa
para que a palavra vento
não entre dentro do poema
onde tenho ao colo a morte
enquanto escrevo
mas quando escrevo fogo
uma lareira invade a casa
e a madeira desperta nas minhas mãos
enquanto escrevo
as palavras que tecem o poema
que a morte vela
enquanto a velo
enquanto escrevo e ela dorme
serenamente
ao meu colo
mas quando não escrevo a morte é
somente é
e compreendo o tempo que se encerra
no significado
quando a escrevo friamente
da palavra tempo
entretanto saio
deixo as palavras do poema
mas não as palavras
na palavra casa
sento-me à mesa da palavra café
e um grito invade a urgência da rua
onde o poema não é
onde o poema nunca o é
aguarda que alguém o acenda
o erga
de deu leito de pó
e a morte ao meu lado dedilha
a melodia dos naufrágios
com seus instrumentos de escombros
observo
a morte ri das máscaras dos homens
máscaras que caem
quando os corpos se vergam aos pés
do seu sólio
e falo sobre o tempo que consumo
sentado à mesa do café
concreto
e a metáfora range o dente rente
à mesa
pressente a morte do poeta
quer ser metáfora em poema
e morde a perna da morte
fila-a
(...)
Xavier Zarco www.xavierzarco.no.sapo.pt www.xavierzarco.blogspot.com
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