
Ouso desafiar o propósito da viagem
Data 29/04/2007 17:49:00 | Tópico: Poemas -> Amor
| Ouso desafiar o propósito da viagem num voo audaz de pássaros afogueados pintados a rubro no azul da pele do céu.
Ouso enfrentar o traçado pré-determinado num compasso poético e apoteótico, num aviamento triunfal, no delírio epidémico e no proclamado êxtase de um fogo lapidado nos recifes gelados dos nossos comuns caminhos.
Nos baixios fortuitos e nos escolhos ocasionais ouso enfrentar silhuetas dúbias reflectidas nas sombras roucas de vozes projectadas nos vitrais agora requebrados pela luz de estrelas desmedidas na certeza, meu amor, de que existem rotas abrigadas em búzios e em ostras ainda não desvirginadas. Rotas só nossas. Para nós e por nós traçadas!
Então, desafio-me na ousadia quase morta Enfrento-me destemida no palco escarpado da vida Enfrento bestas fustigadas em esporas numa maquiavélica máquina de passivas horas. Enfrento metástases, fístulas espiraladas, chagas ululadas em ruídos sustenidos, de soluços e sacaroses, açucares lentos, na faminta sofreguidão de ternuras emancipadas, de línguas penetradas na alma das salivas. Ternuras escondidas e ressumadas nas palavras que ainda não dizemos. Dos gestos que não esboçámos. Registos de que o corpo em segredo nos fala, agasalhados lá no fundo, no convés, ao abrigo das fúrias das marés.
Então, meu amado, olho de novo o sonho aqui ao meu lado neste teu quadro proclamado e deixo que o amor renitente que nos percorre e incendeia do corpo à alma, me conduza na vertigem, no assombro e no delírio de um voo planado sobre o teu voo de pássaro obstinado.
Porque num outro lado, em algum lado, te sinto embalado na mesma toada adivinhada de um mesmo sonho partilhado em igual estado de desejo de dar o corpo de acasalar a alma! Num selar o sonho com um infindo beijo.
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