
NATAL DE MENDIGO
Data 24/12/2008 20:47:46 | Tópico: Poemas -> Reflexão
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Encostado, entre quatro paredes, um desgraçado, de um, de muitos mendigos, que proliferam, infelizmente, pelas nossas cidades, comemorava a sua noite de natal, a meio a luzes de néon e de carros, o que alguém, de boa consciência, lhe havia oferecido, na sua demanda pelo dia de hoje, e que ele, com muito cuidado, embrulhou, num lenço colorido de pano, um tanto esgarçado.
Enquanto ia escolhendo, o que saborear primeiro, meticulosamente, voltava a fechar o pano, para a comida não endurecer, e, seus olhos, brilhavam, não sei se em agradecimento ainda, ou se pelo efeito das luzes, engalanando ruas, reflectindo nas suas pupilas, o que, por meros momentos, a quem passava, repugnância não causava, pois todo esse brilho, juntando-se-lhe ao seu melhor fato, humano, como os outros, se parecia.
Depois, de comer um pouco, de sua consoada, guardou cuidadosamente o restante, num canto, entre degraus, sua casa, fazia muitos anos, e, resolveu-se a sair para as ruas, propriamente ditas, misturando-se com as pessoas e os muitos sorrisos, próprios desta época, onde não faltava gente, vestida de pai natal e enormes árvores, todas coloridas ricamente, deixando-o especado, sem saber muito bem, como se comportar, embora a tudo sorrisse.
Habituado a nada ter, senão esforço desmedido e muito sacrifício, sabia que tudo isso acabaria, no dia de amanhã, tendo então de se conformar, a voltar a percorrer, de novo, rua ante rua, mas também, que, hoje, iria aproveitar, até onde lhe fosse permitido, o natal dos outros. E assim, sem causar distúrbios, passou horas, ora vendo montras, enfeitadas, ora, a um canto, encostando-se, tirando um pouco mais, do que havia trazido, reservado, no bolso de seu casaco, qual criança, deixando o melhor para o fim.
Jorge Humberto 2 3/12/08
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