
Oitavas
Data 23/04/2007 16:37:23 | Tópico: Poemas
| Tentando consumir tantas falhas, Por entre tormentos que não se esquecem. Homens que fumam pequenas mortalhas Em noites distantes que se enriquecem. O cheiro e o gosto das batalhas Consumadas nos campos que estremecem Ao sentir milhares de corpos nas fornalhas Acesas por aqueles que nem a vida merecem.
As feridas que reabrem na recordação Dos mistérios desvendados sem glória De, em dia algum, terem preocupação Ao abrir mais um livro de história, De lembrar toda aquela solidão Em que soaram trompetas de vitória Por entre tanta confusão Nos pensamentos que me correm a memória.
A incongruência humana Que se mostra em actos vis e dementes E em tudo o que o Homem emana Nos seus diálogos surdos tão evidentes Todos os dias da semana. Estas formas de vida inteligentes Que não são mais que gente insana, Em busca de sonhos diferentes.
O ar distanciado do sofrimento Esboçado em faces descoloridas Pela fome que não tem sentimento, Nem sofre por matar vidas De crianças, velhos… todo um regimento Que não têm culpa dessas acções desmedidas Que os loucos fazem a todo momento Achando-as sempre divertidas.
O infame riso nos lábios do carrasco Que vive do sofrimento e do mau trato. Como se fosse carne para churrasco, Para um barbecue indiscreto. Um homem desconhecido que mato, Por considerar a vida um fiasco, Uma vida de assassinato… Fruta podre que descasco.
Este mundo em que vivemos Nós os miseráveis, há milénios, Que desprezamos aquilo que temos. Nós os grandes génios Pelo que inventamos e fazemos, Polivalentes em todos os domínios, Mesmo os que não conhecemos, A dor dos nossos infortúnios.
Cinzentas tardes de cheiro a carvão, Queimando carne nos cemitérios Completamente dilapidados pela população Que destrói todos os impérios, Pelas mãos da revolução, Como se fossem homens sérios Que não ligam à discriminação Ou a todos os outros mistérios.
Nesta incompleta história arrepiante Que não começou, nem tem fim, Mas que tem um desenvolvimento chocante Em que todos dizem que sim, Como heróis sem semblante Que andam perdidos assim, Temendo diariamente o onerante Que é seu ego… enfim.
Por entre jogos de sorte, Máfia de indivíduos facinorosos Cuja ocupação é a morte. Os nossos pensamentos ociosos, Qualquer coisa que ninguém suporte Por serem tão meticulosos, Nada que a mim importe. Incompetência de fiscais criteriosos.
Páginas infindáveis de velhos compêndios Perdidas na biblioteca da nossa vida Que nada mais é que censuráveis vilipêndios De forma repressiva e desmedida Que alastram como se fossem incêndios Resultantes da colossal força perdida Em terras para além dos silêncios, Terras de entrada proibida.
A todos se apresenta a indiferença, Lobo disfarçado em pele de cordeiro Adulterando tudo na sua presença, Como se fosse ele o primeiro De todos aqueles com a sua semelhança. Espelhos espalhados num terreiro Que multiplicam a falsa esperança, Que fazem autópsias de luz a algo verdadeiro.
Por entre agendas e calendários, Contando e marcando os dias, Guardando-os em mil armários, Envoltos em pútridas porcarias, Como se fossem objectos primários Escondidos pelas pratarias. Prateleiras forradas a luxos imaginários Em modestas alfaiatarias.
Devaneios sistemáticos Por entre pensamentos dispersos De acontecimentos enigmáticos Vindos de ilhéus Atlantes submersos, Cheios de vida, com Duendes simpáticos Que ludibriam esses momentos adversos, Simples e problemáticos. Medalhas de ferrugentos reversos.
Odes e maldições lançadas ao acaso Em sonhos que mostram belezas do infinito Seres desconhecidos, caso a caso, Algo que mais não é senão bonito Como um constante e sombrio ocaso Incessante olhar de homem aflito Num momento em que o defendo e arraso Em quão perene conflito.
Veleiros e barcaças que se cruzam Em mares altos de tempestade Adamastores que pegam na chuva e sopram Mostrando desequilíbrio e desigualdade Entre homens que se usam, Fantoches encordoados da divindade Que a tudo se escusam Perante o chicote da verdade.
Astrónomos enterrados em ciências perdidas Em livros que são agora ilegíveis Carregados de letras indefinidas, Que relatam experiências impossíveis Com as habituais cobaias iludidas Por promessas sempre irrecusáveis, Tapando os olhos às mortes imerecidas. Pensamentos inimagináveis.
Aquela força que nos faz perecer Entre fumos de incêndios irreais, Excessos cometidos ao velho entardecer Cuja morte não lhe chega jamais. Centenária sede de viver, Cada vez mais, sempre mais, Infindáveis caminhos do conhecer Que nos tornam algo superior a animais.
Poetas miseráveis que vão escrevendo, Procurando suas amadas seduzir À luz de uma vela que lhes acendo, Em candelabros de prata sempre a luzir, Escorrega a cera que vai derretendo Até a nada se reduzir, Coisas simples que não entendo Nestas terras mouras sem Grão-Vizir.
A distância que nos separa, interminável… Entre dias e noites de obscenos pensamentos Que mostra o lado de todos nós, memorável… Um dia esquecido nos teus sentimentos Neste mais do que certo amor, inviável… Em todos os sentidos vão meus juramentos De uma vida sempre sem destino, instável… Sempre viajante, em infinitos firmamentos.
Desejo de continuar um romance perdido Entre palavras e milhentas desaprovações, Dos que não são mais que um amigo fingido, Que aparece… desaparece… situações, Para desgosto meu, homem ofendido Velho e cansado por estas humilhações, Demónios e vermes que me vêm perseguindo, Espaço cada vez maior entre nossos corações.
O silêncio da escuridão Em noites de nevoeiros e temporais, De chuvas lacrimosas em dia de Verão, Quentes saunas de produtos naturais De antigas florestas abatidas como solução, Desastres não ecológicos mas laboratoriais Feitos pela ciência louca que adora a solidão Estar rodeada por ninguém, entre animais.
Saindo de uma batalha… incólume, Eis o nobre guardião eterno, Tapado pelas honras do costume, Qual Lúcifer em seu inferno De cor amarelo lume, Que obedece a um subalterno Que espalha enxofre e seu perfume No vento cortante do Inverno.
Como num evidente acto sexual, Um espasmo de alegria que se solta No meio da multidão, com voz natural Como se fosse iniciar a revolta, De contornos definidos e fundamental. Tantos problemas à minha volta Que me rodeiam nesta vida brutal Que o mar cobre e exulta.
Secundíparas que choram em conjunto Pela morte terrena dos seus Que juntam a cada dia mais um defunto. Cemitério de Muçulmanos e Judeus Um caixão em cada vala, tudo tão junto, Que esperam milagres de um qualquer Deus, Vidas angustiantes sem assunto, Que diferem em credos, meus ou teus.
Acções incontidas de enormes prazeres Que controlam as vidas como num sonho, Que nos mostram os mais belos dizeres Vindos do povo em músicas que componho, De dentro de pautas que tu escreves, Em tudo o mais, eu suponho A guerra, a paz e tudo o que defenderes. Eu dito, tu fazes… tu pões, eu disponho.
Monólogos inconstantes da consciência Que se bate no dia a dia por qualquer razão Não encontrada jamais na inteligência, Navegante em limbos e paraísos de ilusão Que se cruzam repetidamente na demência, Na procura infindável da única solução Que deriva de uma qualquer consequência Que nunca teve razão ou quis ser equação.
Dormem os Deuses nos seus leitos de prazer Sobre compêndios divinais a ouro paginados, Os Sátiros que os lêem sem saber. Horas que são anos e meses misturados Em todo o tempo, sem nada a fazer Nestes Olimpos perdidos de névoas cercados, De oásis pintados por Vénus a seu bel-prazer Com o menestrel cantando aos pais amados.
No desabrochar das flores mais belas Das cores que iluminam o campo sem nada, Como se fossem simples e esguias velas Iluminando uma cripta abandonada Junto a confessionários de igrejas e capelas Ao lado de uma pequena campa plantada Em memória de divas e donzelas Tiradas de histórias de banda desenhada.
Objectos inúteis que ornamentam um quarto, Embelezado por véus levantados pelo vento, Mostram a memória que fica quando parto, Conseguindo esquecer tudo o que não tento, Que desta triste vida vou ficando farto, Esperando o futuro que parece tão lento Como o andar de um pesaroso lagarto, Que vai parando a todo o momento.
Mulher de olhos azeitona que amou, Com riso sempre sarcástico e bonito Que mais um coração enfeitiçou, Que outros olhos pôs olhando o infinito, Numa dimensão distante que a todos escapou, Por nosso alcance ser tristemente finito, Por não sabermos que só o amor matou A quem não ama e não ouve este grito.
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