
Amortalhou o silêncio
Data 17/04/2007 16:07:50 | Tópico: Poemas -> Sombrios
| Amortalhou o silêncio na boca de tempo lesto e no seu inverso: lento, gasto. Amortalhou o silêncio na ausência d’afago. Silenciou a voz quente da boca e o corpo gritou mais alto, na atávica loucura de se abismar do planalto. A um passo ...
Amortalhou o silêncio no silenciamento gentio de um pássaro engaiolado. De um dançador de fandango que se vê em combate estripado ... Ou até, de um lutador de esgrima, que se esgrima do seu próprio pecado ... Desconhecido.
Ai, o silencio silenciado, rugiu na voz dos trovões, explodiu-se na manhã herege no trinado intempestivo de milhões de rouxinóis. Era tal um batalhão de destemerários soldados a reboar em gemidos de florins e de clarinetes... quando, em destemperamento, em fundas luas de vento os seus silêncios silenciados se erguiam barricados em acatamentos desmedidos. Perpassavam então as noites dissimulados de bonanças, em enfurecidas danças, em que, na fogueira breve do corpo avançava a doença. (E a crença na palavra redentora). O sangue alucinado empapava metáteses em segredo. Os homens e os gestos eram apenas sombras a cruzar-se em encruzilhadas hipnóticas. As portas desengonçavam permanentes em ilhargas perdidas. Estiavam-se vacilantes entre o agora e o antes ... Navegantes! Sempre navegantes ...
Na noite em que a folha branca murmurava, amortalhou o silêncio na mortalha da palavra! Amortalhou-se na palavra!!!
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