
Como se a matéria fogo nos viesse dar novo baptismo
Data 29/10/2008 20:59:57 | Tópico: Poemas
| Como se o sol lhe dissesse: vem daí para a minha beira! Como se pelo buraco do peito se avistasse-lhe o pântano espiritual Mete-se a mão e zás!, recollhemos o amor em bagos Depois espanta-se com a cara de quem vê o preço do branco a subir E fica-se a saber porque dói o silêncio ou o ferro quente não engoma o pêlo do lobo
Como se a tempestade fizesse arrasar a colheita de sangue Como se o jejum dobrasse a forquilha à felicidade O amor bem que podia dar meninas pelo quintal Regadas com suor de flores Prata líquida percorrendo o pescoço – a maravilha da pétala
O homem sentou-se. Triste e absorto. Mimando uma lâmina usada. Nunca beijara a face aberta de uma mulher
Tem por uso plantar cactos no quintal E dos espinhos santifica-se Com o dedo na terra alimenta a oração
Os olhos como faróis. Ou vice-versa Escorre o veneno pela luz vinda do solo Jaz a música no cântaro abandonado O fogo estala ante a carne borealesca A solidão escapa-se do gavetão-memória Tecidos podres Podres tecidos Há vestígios de alma que esperam pendulares
A morte é um veículo veloz Que segue sempre na auto-estrada No poço todos os murmúrios são cantos de galinha Ó que zumbie tão estridente é o mar! O Homem tem as plantas como seu tesão A gravidade está prestes a ser um feno comido pelos bois E a certeza é que debaixo da pele: um fogo-posto
Como se a matéria fogo nos viesse dar novo baptismo Como se o relojoeiro argolasse o tempo à cadela que dorme no prédio Investir na vida não é preciso saber para que lado é que se há-de morrer
Ao contrário da morte a vida é um equívoco raro: o momento em que o carneiro se despe catedraticamente Perguntem a este homem Gélido Putrefacto Electro-iluminado Que ressuscita a cada minuto num coágulo de sangue fresco
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