
Ressonar é Fácil
Data 25/10/2008 13:26:43 | Tópico: Contos
| Acho que nenhum dos meus leitores terá sabido que fui incumbido de reorganizar a Biblioteca do Lar. Claro que para fazer um trabalho completo e coerente, dou uma curta "vista-de-olhos " por cada livro ou colecção que vou inserindo.
Foi com espanto que redescobri um texto que já lera noutros tempos, noutro lugar,e do qual já perdera a memória. Por isso, dada a actualidade do tema tratado, não resisto à tentação de transcrever alguns excertos de um artigo de Carlos Quevedo - "data venia- ,publicado numa "Antologia de Contos "-editada pela Portugal Telecom"
"...Eu (o Carlos Quevedo), conheço um caso emblemático. Um homem bem educado, com êxito no seu trabalho, sem disfunções sexuais particulares, limpo, com boas maneiras - come com a boca fechada, por exemplo-, simpático... Enfim, um homem com os mínimos requisitos necessários para entrar em competição. No entanto, tem um problema grave: ressona como uma besta. Toda essa meiguice e encanto diurno vai pelo cano abaixo quando adormece. O coitado sofre muito. As namoradas, por muito amor que sintam, depois da terceira noite passada com ele abandonam-no. Com lágrimas nos olhos, é certo, mas sem piedade. O ressonar dele era e é, de facto aterrador. Não é regular ou rítmico, o que às vezes ajuda. Não começava no meio da noite, quando a "meia-laranja" já podia estar adormecida. Não. Era instantâneo, imediato. Por momentos parecia que ia morrer asfixiado. Pior: mais de uma namorada rezou para que ele morresse antes que fosse ela a assassiná-lo.
Nunca se curou. E, no entanto, casou-se. Encontrou uma senhora que, não sendo surda, não se importava: Era mais rápida que ele a adormecer e o sono dela era mais profundo que um filme de Manoel de Oliveira. Feliz, ele confidenciou-me que finalmente tinha encontrado alguém com quem se dava bem na cama. Não era bem isso o que ele queria dizer, mas eu compreendi.
A ele dedico estas linhas."
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