
Basta!
Data 15/04/2007 22:00:28 | Tópico: Poemas -> Sombrios
| Num mimetismo de gestos repisados e inúteis finjo que existo. Que vivo Que sou Que sinto Que penso Basta! Semimorta rosa. Rosa do nada… Dispenso palavras piedosas! Estou enfadada. Agastada. Tão cansada… Da colina sopra-me permanentemente o vento da minha própria insignificância. (e da tua jactância) … Do mar banha-me escorreita a baba enfunada. Insistente, esgoto-me em gestos desocupados na loucura de procurar ser gente. E vazia, chocalho sinos por dentro de nada ser. Nada … Não mais que uma alma inventada, rodeada de milhões de silhuetas embicadas. Sinistras sombras!
Dromedários dormem-me no colo dormente. Espectro fantasmagórico projectado na amurada.
Basta! Basta de colar reflexos partidos, de fingir que me revejo, que sou o teu maior desejo … que te sou bela, translúcida, lúcida, com sentido. (In)versos, todos os passos que dou, não me levam a nenhum lugar. Passos perdidos!
Mumificada, corto o tempo à navalhada em fatias atomizadas. Fragmento o rumor do silêncio em partículas volatilizadas.
Num mimetismo de gestos repetidos e inúteis concluo que as minhas palavras não tem dentes… Tem barbas brancas, nubladas. Têm o pó trespassado na solidão das inóspitas madrugadas.
Basta! Cravo a preceito com cravos profundos, os prantos, os gritos, no lugar certeiro do lado esquerdo do peito. Nem sequer choro … Corto a raiz aos pulsos quentes… Deixo que o sangue corra, seja sapo frio… Emulo-me na forja do alto-forno. Fustigo-me na bigorna do ferro dorido, onde reside o acervo de um mulher em derrocada.
Larga-me, deixa que suba, que suba a montanha encantada … E que no abismo final de mim me sepulte projectada.
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