
Cantares ao desafio
Data 14/10/2008 15:49:12 | Tópico: Crónicas
| O menino a tocar concertina em jeito de canto ao desafio pela feira trovando mágoas:
A vida já me foi dura Por essas terras afora, Por essas terras afora Há sempre quem me tortura
A romaria vai seguindo, disfarçando peregrinação de santo com festa pagã. Há sempre uns velhos malandros que a troco de uns bagaços desatam a língua ao menino:
Não te queixes óh moço Há sempre aqui um pêssego Há sempre aqui um pêssego Pa chupares até ao caroço
E o menino, rapaz, moço aperta os bofes á concertina procurando em vapores de bagaço resposta a tal desafio:
Muito boa noite senhoras e senhores Vejo muita falta de caroço Vejo muita falta de caroço E também de bons cantadores.
Os velhos empertigados trocam olhares, buscam inspiração no santo da romaria, no passo trôpego do rapaz, e antes que eles buscassem inspiração divina o menino, rapaz, moço atira-lhes:
Não procurem no Gedeão Não procurem no Santareno Procurem no nosso governo A falta de formação
Magalhães chamou ao computador Fazendo de caixeiro-viajante Fez figura de triste e pedante Não tirando ao povo essa dor
Quem muito estica pouco tem Pouco tem quem assim aldraba Merecia levar com a albarda Do povo qu’a ilusão entretém.
Os velhos calaram-se, o miúdo deu o último acorde, o lavrador resmungou com a vaca que não vendeu, o peruano que pulula nas feiras arrumou a quinquilharia da barraca. O cheiro de farturas esfumou-se no ar misturado com outros de bifanas e os modernos “hot-dog”. Amanhã haverá feira noutro local, deste mesmo Minho perdido nas cercanias da realidade, de forma embrutecida que em vapores de romaria vai dizendo que sim, que amanhã será dia de feira…
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