
THE BLACK SWAN
Data 01/04/2007 23:54:05 | Tópico: Poemas -> Amor
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THE BLACK SWAN
Vens à cidade E ela escapa-se-te Por entre os dedos do último metro Uma vez mais O acaso que fere que queres À deriva por fora da cartilha maternal Apeado por um metro por um minuto Por uma fita amarela Nos braços da Aurora
Vens à cidade E ninguém te espera Nem sequer as mamas Da gaja do lado Cujas mãos folheiam um livro Talvez até de Cesariny Olha, afinal não, É o “Discurso do Método” de Descartes A razão a descartar o instinto e a loucura Mas tu continuas a ser tu próprio A aguentar o “Barco Bêbado” As cheias do Douro Com o ouro nos bolsos, para variar À deriva por uma diva À deriva a ferir a dama Mas, apesar de tudo, Permaneces íntegro integral Até pediste um café Enquanto que as gajas do lado Se emborracham Para contrariar o habitual
Vieste com Cesariny, com a liberdade, com o surreal Mas o bar da poesia ficou alagado Pelo rio da àgua Pelo Rio da Câmara E perdeste a vontade de rir
Sempre odiaste os grupos, os grupelhos organizados, Os grupecos fechados Embora até prefiras juntar-te às matilhas de fêmeas Em detrimento dos machos Porque são mais selvagens, mais livres, Mais próximas, mais naturais E riem loucamente E acariciam os cabelos loucamente E fazem-te beber até ao fim Como o teu amigo Jim Até ao tasco fechar Até ao barco se afundar Na cidade onde nasceste Onde já foste tudo e nada “O nada que é tudo” Rei e mendigo Actor e espectador Vítima e carrasco Vens da noite e amas a noite Vens do fracasso em busca da luz Vens do cansaço em busca do Homem Bebes porque só assim consegues viver Vives porque só assim consegues beber Entre mulheres e fantasmas Entre delírios e gargalhadas Entre a Pamela Anderson, a Mimi, A Minka e a baba dos cães Entre as gajas das revistas E as putas da rua Ama-las a todas Quere-las a todas Excepto se forem feias Excepto se forem frias Excepto se forem vazias Excepto se forem santas
Mas amas sobretudo a rainha de copas E as tuas irmãs Não sabes é, ao certo, quantas são Algumas nunca as viste Nem sabes quem são Vives em Roma, em Atenas E és completamente doido Completamente fora Por isso é que os guardiões do templo e os moralistas Te querem manter cativo, em hospícios, Longe da cidade Porque sabem que tens o dom da palavra E podes tornar-te perigoso Sobretudo nos dias e noites em que tens visões E procuras a tribo
Na infância e na adolescência controlavas-te E fechavas-te numa espécie de redoma E tinhas medo de Deus, da moral e de partir os vidros Mas a tola é a mesma: Genial? Mágica? Maníaca? Demoníaca? Dionisíaca? Apolínea?-talvez, também.
Vens à cidade- ela pertence-te Nada tens a temer É a tua mulher- a dama de espadas É tua como a lua como a cona Como a rua do poema E já perdeste o preconceito a vergonha E já te apetece perderes-te com as gajas com as bacantes No meio delas no meio do mar Mas o amigo chama-te O velho camarada de outras eras Do outro que eras E ainda és
E o camarada arranca a página da “Ilíada” No meio das patas, dos marinheiros, dos travestis E a rainha faz anos O rei está doente E até parece pecado Quando te fazem perguntas Acerca de Timor e da Indonésia Do Suharto, do Alatas Do Ximenes, o Belo, e do Horta diplomata Todos uns bons filhos da puta Da puta não, que até a amas Como à Madalena É aqui que te tomam por culto, por santo, Porque lês Sade, Nietzsche, Miller E compras jornais E todos eles estão em ti O Cesariny, o Oom e o Lisboa
Putas travestidas de mamas à mostra Poema contínuo (como Herberto) Em coma, na cona, em Roma Vais chegar a casa às 7 da manhã Como Satã na canção (na tua canção) E o teu nome é mesmo Liberdade És o anarquista do Vale A caminho do Hades será que hás-de Cair na Graça Ou em desgraça?
Puto de poema que nunca mais acaba Puta do poema que me desperta De qualquer forma, cavaleiro negro, Não olhes para mim Não me estendas a mão Contigo não vou Não sou teu Nem por milhões Nem por euromilhões Vai, morte, Que me persegues, Vai, sorte, Que me feres
Olha, voltaram a meter conversa Com os meus versos Falam-te de Fidel, de Chávez, da América Latina Tornaste-te um intelectual respeitado Por estas bandas Esquerdista convicto Bombista nas horas vagas Afinal, os livros até te servem de alguma coisa E o filme regressa Sobes, de novo, ao palco, Armado em estrela Não consegues fugir à fama, à ilusão maldita Só no palco te sentes em cima Amado odiado Com fantasmas nos cornos, é certo, Com moinhos e Dulcineias Narciso incendeias Mas permaneces em comunhão Com aqueles que segues com aqueles que amas Com a estrela que segues sempre Rubra negra imensa maldita Que te faz “intensamente livre” Imensamente livre Como o cisne, como o poeta O último dos românticos- como dizem na entrevista Que nada tem a ver com o caramelo lá de cima Ou talvez até tenha- já nem sei Não quero saber
És o poeta, o cisne negro, the black swan, The end.
Porto, piolho-big ben, nov. 2006
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