
Cúmplice a Lua Cheia ...
Data 01/04/2007 16:10:00 | Tópico: Poemas -> Amor
| Tenho lágrimas de sangue coalhadas nas narinas e dos meus verdes olhos, espreitam pupilas assassinas. O vento escorre-me ácido na garganta intensa dum tempo sem palavras. Sem legendas.
Dos braços, soltam-se os raios que incendiaram a sanzala e o corpo tem o registo do grito, da dor, do corte, do tronco. Rouco, o guincho atravessa a cor da luz, move-se no fuso parco de um moinho de vento. Sem velas! Sem fronteiras, espaços territoriais, grunhem em mim e por mim as vísceras ainda quentes dos estripados animais.
Sacrificados ao Templo dos Deuses, morrem a ritmos lentos, morrem como eu, a cada momento.
Morrem na roda viva das horas. Mutilados, na voz silenciada do pó das estradas, das casas sem paredes, das persianas sem janelas. Aguarelas desenhadas à catanada nos mangais bifurcados, rios de feras atolados.
Toldados, os teus e os meus sentidos soltam-se em vagidos ritmados, reajustados, na cadência da brisa em queda nas costas frias da terra.
Elevam-se os ritmos, os corpos incendeiam a fogueira alaranjada das coisas revividas. O suor mistura-se com a saliva. Enterras a espada de guerra no âmago láctico de Geia, nas profundezas da mais recôndita floresta primitiva.
Sobre nós, flutua agora cúmplice a Lua Cheia!.
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