
Estações da alma
Data 21/08/2008 14:02:49 | Tópico: Prosas Poéticas
| ESTAÇÕES DA ALMA Maria José Limeira
Lobos, coiotes e mulheres rebeldes têm destinos iguais. A História saqueou, queimou e destruiu os redutos escondidos da mulher, para que ela agradasse aos outros, esquecendo-se de si própria. Para se encontrar de novo, a alma feminina tem que cavar-se e cantar sobre os escombros. Mulher tem que ter coragem para enfrentar os predadores. Meu ser se alimenta de trovões e relâmpagos. Milharais, girassóis e plantas selvagens estalam e conversam comigo na minha trilha. Os regatos me lavam. Sou artista. Meu lugar no mundo é vagar a esmo. Depois que o sol se põe, converso com a Natureza e ouço o farfalhar. Conto estórias que os adultos não podem ouvir. Toda morte é repentina. Borboletas voam no alto da minha cabeça. Vagalumes são jóias da noite e brilham como pulseiras enfeitiçadas. A pele tem vida própria. Abro meu espaço em árvores, cavernas, bosques e gavetas de armários. Sou ampla, e o céu é meu lugar. Danço na floresta. Cato meu lixo interior, onde está o melhor de mim. A palavra escrita é meu verdadeiro lar. A perda é tão profunda quanto a beleza. Sou ruptura. Não caibo dentro das regras. São sete os oceanos do universo onde navego. Existe luz no meu abismo. Nunca esqueço os motivos que me fizeram nascer e por que continuo vivendo. Jamais me calarei enquanto estiver ardendo. O que regula o estado do corpo humano é o coração. Quando inicio uma viagem, vou até o fim. Ainda que sofra. A função criadora fertiliza a aridez. Meu território é a matilha. Minha linguagem é o sonho. Saí de casa à procura de mim mesma e descobri, espantada, que o Eu mora dentro de mim. Depois da noite e da treva, nasce a luz. Sou fundo de poço, início dos tempos, lágrima, oceano e árvore. Sou o verde no meio da neve, e clarão na paisagem dolorida da seca. As histórias curam minhas dores. A arte é feita de estações da alma. Deixarei na terra um mapa detalhado de mim, para que outros encontrem o tesouro que me faz feliz. Em cada fragmento de mim, existe a lembrança do todo. O vento sopra no meu espírito. Quando encontrei o sonho, meus ferimentos pararam de sangrar...
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