
PARA DORIVAL CAYMMI
Data 17/08/2008 16:39:55 | Tópico: Crónicas
| As últimas aparições de Dorival Caymmi em shows foram todas ao lado dos filhos. Pela ordem cronológica: Nana, Dori e Danilo - os dois primeiros gênios incontestes; o terceiro, nem tanto, mas nem por isso deixou de ter o seu nome, como co-autor, imortalizado em clássicos da música popular brasileira, como Andança e Casaco Marrom. Em fins de 1980, no Rio de Janeiro, tive a oportunidade de assistir a um desses espetáculos da família Caymmi. Quero confessar que, talvez pela pouca sensibilidade musical, nunca fui fã de carteirinha do velho Dorival. Isto não significa, porém, que não o admirasse. Pelo contrário, é autor de verdadeiras maravilhas do nosso cancioneiro popular. Mas se gosto de Marina, Suíte dos Pescadores, João Valentão e Das Rosas..., que eu cantava quando criança, não tenho a menor simpatia, por exemplo, por O que é que a Baiana tem. Nunca me interessei em saber o que a baiana tem ou deixa de ter. Até porque sempre detestei Carmem Miranda, a falsa baiana, que nunca cantou coisíssima alguma, mas que soube vender - e muito bem - o seu mal temperado peixe aos norte-americanos, desprezando o Brasil. Digo o mesmo do chatíssimo João Gilberto, para mim mais um gênero do que um gênio, incensado como um verdadeiro deus por compositores, cantores, mais jornalistas e pesquisadores, estas duas últimas categorias que, com raras exceções, não conhecem uma só nota de música, mas adoram fazer média. Enquanto isso, nomes como Jhonny Alf e Alaíde Costa vivem praticamente no limbo. Eu não deveria estar escrevendo estas linhas. Caymmi está morto.Sua figura foi e será amada por todos os brasileiros. Eu mesmo gostaria de tê-lo como pai ou avô. Ele, sim, era doce, ao contrário de morrer no mar, que deve ser terrível.Caymmi pode não ter sido um grande poeta, como dizem. Poeta, para mim, é poeta de livro. No entanto, meus amigos, Caymmi viveu como um poeta. E viver como um poeta é mais importante do que fazer versos ou publicar livros. Sua obra, em cinqüenta anos de atividade, resume-se a pouco mais de cem canções. Claro, quantidade não é qualidade. Se assim fosse, Coelho Netto e Chico Xavier seriam os maiores escritores do Brasil. Das minhas canções preferidas legadas por Caymmi, não mencionei acima, de propósito, a que mais gosto: Acalanto, composta para a filha Nana. Até hoje, quando a escuto, vou às lágrimas. Com fama de temperamental e antipática, o que não é verdade, Nana transfigura-se ao interpretar a canção em sua homenagem. E parece que agora, enquanto meus dedos batucam no teclado do computador, estou me vendo naquela poltrona do teatro, olhando para o palco, ouvindo a família Caymmi cantar para mim. Nana está de vestido largo, para esconder o excesso de peso. Dori,compositor e arranjador internacional, toca o seu violão. Danilo sola na flauta. Dorival, todo de branco e de sandálias, com a voz inconfundível, começa: "É tão tarde, a manhã já vem.../Todos dormem, a noite também./Só eu velo por você, meu bem..." Nana volta ser menina. Dorival está sentado. Ela repousa a cabeça no colo do pai. E aí,sim, é ela quem canta. Quando termina, os refletores apontam na direção do seu rosto inundado de lágrimas. As mesmas lágrimas que todos nós brasileiros choramos agora. Por você, Dorival. Dorme, anjo...
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