
filosofia do gesto
Data 28/07/2008 10:19:11 | Tópico: Poemas -> Amor
| era a tarde que caía azul e lentamente no mouchão do Tejo e na Lezíria em frente donde, atendendo ao meu desejo de as ver por perto, vinham andorinhas poisar nos fios eléctricos
[faziam ninhos seguros na concha de minha mão … sabias?... há tanto tempo …]
era um tempo de rosáceas flores enleadas no vermelho das buganvílias e destas fundidas em gradeamento de ferro, mimetizadas meninas em desvãos de escada …
[… este vento, meu amor, este vento, que se eleva dos restolhos de palha, que m’ atropela e m’atrapalha e que me não dá sossego … desassossego-me por dentro! * ...respiro a aragem que chega. há em toda ela uma voragem bucólica e uma doçura canalha que me apela à viagem. ao esvoaçar incessante de corpos e de asas …]
então tu chegavas no cheiro da terra acabada de regar no piar de ave incerta, quiçá daquela que descortino além por sobre a ciranda de pedra, mó do trigo …
ébria, reconhecia-te em cada distinto verde em cada folha que avistava e que guardava, decalque em mim: da oliveira, de tom escuro e miúdo folhedo da bananeira clara, altiva, erecta da nespereira a regurgitar em tenras folhas no perfume copioso das amendoeiras secas dos troncos das nogueiras ancestrais
e no sibilar dos sons na copa densa dos pinheiros...
… e em tantas outras coisas, mescla d’ harmonia assimétrica.
o pomar embalava-me em acoplamento de género oposto e eu sabia-me fêmea, mulher, a cada liminar momento em que o frio do granito me tolhia a pele dos pés descalços e a tarde vigente me seduzia em líricas colantes d’abraços heréticos…
era um tempo a esboçar-se na filosofia do gesto.
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