
O QUE EU SOU PRA VOCÊ
Data 29/04/2006 22:39:05 | Tópico: Poemas
| O QUE EU SOU PRA VOCÊ
Eu sou o cheiro do vento. Eu sou o remanso dos lagos. Eu sou a beleza das ondas, Eu sou a estrela no espaço.
Eu sou a tragédia de Hiroshima. Eu sou o atentado ao Papa.** Eu sou os famintos da Etiópia, Eu sou a humilhação do tapa.
Eu sou este sol que ilumina. Eu sou esta lua que acalma. Eu sou o balão que sobe, Eu sou o eco dos vales.
Eu sou o fumo que queima. Eu sou o amargo do fel. Eu sou o aceno da partida, Eu sou o drama de Israel.**
Eu sou o diamante da rocha. Eu sou o calor do sol. Eu sou a importância do sangue, Eu sou a semente do girassol.
Eu sou o trombo nas veias. Eu sou o raio na chuva. Eu sou o desespero da fome, Eu sou o filho que a mãe excomunga.
Eu sou este ar que dá a vida. Eu sou essa água do solo. Eu sou o perfume da flor, Eu sou o poeta de outrora.
Eu sou a angina no peito. Eu sou a avalanche nas neves. Eu sou o furacão do sul, ** Eu sou a escuridão das trevas.
Eu sou o canto dos pássaros. Eu sou o sabor do prazer. Eu sou a doçura do mel, Eu sou a alegria do viver.
Eu sou a cureta que mata. Eu sou o filho que não pode gritar. Eu sou a mãe que o assassina, Eu sou a dor de quem não pôde evitar.
Eu sou a pedra que rola. Eu sou o sino que toca. Eu sou o flúmen que corre, Eu sou o giro da roca.
Eu sou o simulacro da forca. Eu sou o caminho do mal. Eu sou a alucinação do delírio, Eu sou o ardor do espinho, da lança e do sal.
Eu sou a caverna de inermes. Eu sou a esperança dos pobres. Eu sou o carinho da brisa, Eu sou o segredo dos cofres.
Eu sou o agouro dos corvos. Eu sou o veneno das cobras. Eu sou o fogo da brasa, Eu sou o carrasco com as cordas.
Eu sou o sorriso da criança. Eu sou a experiência dos velhos. Eu sou o conto das fadas, Eu sou a encarnação de Eros.
Eu sou da granada o estilhaço. Eu sou o golpe da foice. Eu sou do karatê o seiken, Eu sou do burro o seu coice.
Eu sou o livro que ensina. Eu sou o princípio da sorte. Eu sou o orvalho da noite, Eu sou o encanto da morte.
Eu sou o pavor do medo. Eu sou o nervoso do gago. Eu sou a picada da abelha, Eu sou o estrume do gado.
Eu sou a lente do míope. Eu sou a bengala do cego. Eu sou a morfina inibindo a dor, Eu sou o mistério do ego.
Eu sou Goneril e Regane. Eu sou a procela que mata. Eu sou o Vesúvio destruindo,* Eu sou a cólera que ataca.
Eu sou os jardins do Éden. Eu sou a perfeição dos caracóis. Eu sou o festival de Cannes, Eu sou o mágico de Óz.
Eu sou o homem perdido na lua, Eu sou o mendigo na Terra. Eu sou a justiça clamando, Eu sou o fogo subindo a serra.
Eu sou a boca sorrindo. Eu sou a liberdade do pássaro. Eu sou o coração de menino, Eu sou o cometa que passa.
Eu sou os fanáticos de Moon. Eu sou o tal papa do diabo.** Eu sou a orgia dos Bórgias, Eu sou esse carrossel de crápulas.
Eu sou a brisa que beija os lábios. Eu sou o suspiro que afoga as mágoas. Eu sou a lembrança que transcende os anos, Eu sou a vitória desse povo fraco.
Eu sou as fábricas poluindo os rios. Eu sou o monóxido envenenando os ares. Eu sou a escória atômica que assombra o mundo, Eu sou a televisão que destrói os lares.
Eu sou a droga que cura o câncer. Eu sou o vento que espanta os males. Eu sou o extintor que apaga o fogo, Eu sou força que controla a garra.
Eu sou o sismo que abalará Chicago.* Eu sou o maremoto que destruirá as naus. Eu sou a corrupção em forma de governo, Eu sou o vulcão que destruirá Manaus.*
Eu sou a mão que oferece comida. Eu sou a sombra que protege o gado. Eu sou o oásis que salva no deserto, Eu sou a fé, na hora aflita do parto.
Eu sou os megatons da morte. Eu sou os mísseis teleguiados. Eu sou Hitler exterminando judeus, Eu sou a foto dos assassinados.
Eu sou o sono que refaz do cansaço. Eu sou a noite para que você possa dormir. Eu sou o sonho que completa a felicidade, Eu sou a manhã disposta do agir.
Eu sou a hidrofobia no homem. Eu sou o vírus da peste suína. Eu sou a febre aftosa no gado,** Eu sou a privação da vacina.
Eu sou o farol da Alexandria. Eu sou o silêncio dos templos. Eu sou a alegria da Disneylândia, Eu sou o amor dos novos tempos.
Eu sou o Judas da mesa. Eu sou o esquadrão da morte. Eu sou Nero incendiando Roma, Eu sou a rês a caminho do corte.
Eu sou os versos que animam a vida. Eu sou a viola que embeleza o forró. Eu sou a cigarra que canta e chora, Eu sou o bailar da pedra mó.
Eu sou a artrose nas juntas. Eu sou a ardência do calo. Eu sou a cólica nos rins, Eu sou a conjuntivite nos olhos.
Eu sou os brinquedos do parque. Eu sou o iate deslizando no mar. Eu sou a pipa colorida flutuando, Eu sou o balão majestoso no ar.
Eu sou o bromato no pão. Eu sou a canjiquinha na carne. Eu sou o herbicida no campo, Eu sou a coceira da sarna.
Eu sou o coração de Gandhi. Eu sou a esperança no interferon. Eu sou a melodia da música, Eu sou do violino o teu som.
Eu sou o financiamento no banco. Eu sou a cruel prestação do BNH. Eu sou o pai que abandona a família, Eu sou os juros que fazem o homem pirar.
Eu sou o médico extirpando o mal. Eu sou o dentista aliviando a dor. Eu sou o advogado defendendo a liberdade, Eu sou o espírita pregando o amor.
Eu sou a serpente preparando o bote. Eu sou o escorpião injetando o veneno. Eu sou a aranha mordendo a criança, Eu sou, também, a febre do feno.
Eu sou a beleza do cisne. Eu sou o encanto do pavão. Eu sou a elegância da seriema, Eu sou o colorido do faisão.
Eu sou o tumor no cérebro. Eu sou a inflamação do baço. Eu sou a gangrena na perna, Eu sou a fratura do braço.
Eu sou o prêmio da loto. Eu sou a aposta no bicho. Eu sou a federal premiando, Eu sou a sena fazendo ricos.
Eu sou a visão terrível do futuro. Eu sou as águas cobrindo a Europa.** Eu sou a doença do líder Arafat,** Eu sou o suicídio tristonho do Papa.*
Eu sou o governo da massa que virá. Eu sou o povo festejando nas ruas. Eu sou a expectativa nova que nasce, Eu sou o mundo respeitando o novo líder.
Eu sou a cruel febre atômica.* Eu sou esta doença infernal. Eu sou a pele desmanchando, Eu sou a seqüela menor deste mal.
Eu sou Deus por entre as nuvens. Eu Sou o exército fantástico dos anjos. Eu sou os clarins anunciando a Ave Maria, Eu sou nessa hora o infinito e os seus encantos.
Eu sou o blake out assustando São Paulo.** Eu sou Angra II, a usina assassina.* Eu sou a doença que virá mais forte que o câncer,** Eu sou a tragédia que marcará a china.**
Eu sou o alcoólatra que regenera e sorri. Eu sou a alma que consegue a salvação. Eu sou o dependente que supera o vício, Eu sou o pai concedendo ao filho o perdão. Eu sou esses homens empedernidos. Que esta Terra conseguirão destruir: Pois no lugar da paz, fazem a guerra, Criam a peste, a violência, os foguetes. Mas criam também manicômios, Para seus próprios produtos, poderem consumir. ( (Poema escrito em 10 de outubro de 1976).
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