
INSÓNIA
Data 23/07/2008 14:06:16 | Tópico: Prosas Poéticas
| Passei as trevas a velar a Noite...
Pobre Noite, minha!
Grávida de amarguras, insone de sonhos! E a Lua, lá fora, prenhe de falsa esperança... Passei a noite a desfiar rosários, em contas de estrelas descrentes de luz...
Pobre Noite, minha!
Em ânsias de parto, em ondas de dor, gemendo no eco dos ventos de breu!
...E o Dia que tarda, não se quer dar à luz...
Passei o negrume à cabeceira da Noite, contei-lhe histórias, para iludir a angústia, que vinha e voltava, em espasmos de medos e diluía os uivos dos lobos, nos seus...
Seduzi-lhe o sono, lembrando-lhe dias que parira em flores e brilhos de Maio, envoltos em Sol e adormecidos por cantos de pássaros jovens em enamorados gorjeios... Acariciei-lhe a fronte, tomei o seu pulso, mas a pobre Noite, fria, recusava as forças, desesperava o Dia!
Pobre Noite, minha!
Enfim... Tomou minha mão e, em eco cavado em grutas de alma e gritos de guerra, extinguiu-se, lívida, banhou-se de orvalho, deu-se à claridade, em estertores de sangue! E os meus dedos trémulos, ineptos, inábeis, moldam orfandade em poder maternal, lavam-lhe com lágrimas os vestígios do parto, e estendem o Dia a secar ao Sol...
Pobre Dia, meu!
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