
RUA DA SAUDADE
Data 23/07/2008 13:59:03 | Tópico: Poemas -> Saudade
| Que saudades da minha rua Nas tardinhas de Verão, Quando a aragem brincava, A esconder-se do calor, E subia a estreita calçada, Direitinha do Marão!
Tantas saudades, tantas!, Das sestas ao relentinho, Ou na soleira da porta, Aprendendo a bordar Flores que minha mãe plantava Em retalhos de branco linho...
Que saudades das Trindades Em ecos na minha rua, Quando aplacavam suores, Chamando aos doces lares Afazeres de sol-a-sol, Afagos de lua-a-lua.
Com as pedrinhas lavadas Pela chuva de Verão... Que saudades da minha rua, Em subida para o céu, Atapetada de flores Em dias de procissão!
Que saudades da minha rua! Dos Domingos soalheiros, Quando os moços se vestiam De lavado e bailarico, E sua alegria enfeitavam De namoricos brejeiros.
Tantas saudades me dá Lembrar o ledo bulício Da minha rua que era Avenida Principal Dum tempo em que a minha aldeia Era meu colo patrício!
Que saudades das vindimas, Quando a azáfama era crescendo Na calçada adocicada Pelas lágrimas dos bagos Sacrificados nas rodas Dos carros de bois, tangendo...
E o aroma dos açúcares, Ainda hoje os sinto assim, No melhor cofre que guardo, Junto com os sons do fado, No vivo altar da saudade Que reza dentro de mim.
Hoje, só silêncio mora Na minha rua esquecida... As gentes negam-lhe os passos, Preferem estradas e carros E desdenham a calçada Onde pisaram a Vida...
(A calçada da minha rua é a subir e a descer... ... assim como a minha Vida, calçadinha de sofrer...)
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