
GAIOLA VELHA
Data 18/07/2008 13:41:50 | Tópico: Prosas Poéticas
| À mínima distração do tratador O pássaro deu de asas e se apartou da gaiola velha. Pousou no galho mais alto da palmeira, Lá onde a seiva alimenta a última célula. Ficou imóvel por um tempo, Sentindo o vento eriçar-lhe as penas claras; Não se lembrava de ter tido essa sensação um dia. Olhou a pradaria vasta e limpou o biquinho de lacre Antes de alçar um vôo magnífico e tão esperado. Enquanto voava lembrou-se das mãos do tratador Colocando-lhe a fruta espetada Numa das hastes da gaiola velha; Teve saudade daquelas mãos, Mas essa saudade era boa, uma lembrança tênue, Quase imperceptível. O que lhe enchia a alma de ave agora Eram os matizes daquela tarde em que renascera, O céu de um azul turquesa límpido, Com nuvens salpicadas, Como acontece sempre nos meses de abril. Visitou as pedras do riacho cantante E as flores que por ali beiravam, Encheu o peito de ar fresquinho e cantou como nunca. Os outros bichos que por ali passavam Pararam por um momento para ouvir a melodia. Vagou feliz pelos campos E provou minhoca pela primeira vez Num banquete solitário, contudo saboroso. Rolou pela terra e comeu fruta madura. Dormiu com outros pássaros na madrugada fria. Assim foi por longos dias experimentando o novo, As coisas que sonhava lá da sua gaiola velha. Ah...a gaiola velha... Teve vontade de ir vê-la. Apontou o bico na direção do instinto e partiu. Voou o mais rápido que pôde, Atravessando os campos a sua frente, Até que avistou ao longe o sítio antigo, As criações que ele bem conhecia, Os ruídos que eram-lhe peculiares. Deu a volta na casa e pousou no muro da varanda; Assustado olhou a gaiola velha pendurada. Lá dentro um pássaro parecido com ele Comia a frutinha pendurada na haste E piava calmo enquanto comia. Olhou pela fresta da porta da cozinha; O tratador fazia sua sesta. A cadela Jurema ressonava no capacho. Ele pulou do muro para o telhado, Olhou a sua volta... novamente para a gaiola velha... E pela primeira vez experimentou melancolia Na sua alma de pássaro.
Frederico Salvo.
|
|